quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Por Pérola Reis, Vanir Junior, Elizabete Chaves, Laíne Mendes e Duda Weber



Quando falamos de Micro-História, é essencial antes contextualizarmos a situação do debate historiográfico na década de 70, no grupo dominante na produção de conhecimento histórico: Os Annales. O momento de divergências teóricas em tal grupo se dá em torno da questão quantitativa, a retomada da narrativa e da história política. Isso cria sintomas da crise de confiança na história focada primordialmente no social e produzida a partir de uma cunhagem mais geral, que leva às diversas críticas a posteriori, como a de François Dosse, que evidenciou esta fase como um momento de contradição e perda da linha teórica dominante dos primeiros Annales.
Assim, surge no decorrer dessa mesma época uma corrente que terá sua maior expressão na Itália sem, contudo, ter sido mencionada primeiramente lá: A Micro-História. Este gênero historiográfico é, de certa forma, recente e se constitui, grosso modo, como uma proposta de reduzir o foco de observação, com o objetivo de tentar localizar um aspecto não percebido antes por uma abordagem generalizante e mais tradicional.
Mas como já dito neste texto, a menção da Micro-História já havia sido feita em outros locais sem ser a Itália. Podemos citar a sua menção por George R. Stewart nos EUA, com a obra “Not so Rich as You Think”. Ele prega uma análise microscópica, como é possível perceber na obra “Pickett´s Charge. A Microhistory of the Final Charge at Gettysburg, July 3, 1863”, falando de forma bem minuciosa sobre certa batalha da Guerra Civil Americana. Além dele, teremos outras abordagens no México, com Luis González y González na obra “Pueblo em vilo. Microhistoria de San José de Gracia” a partir da análise de uma aldeia minúscula num espaço de quatro séculos. Entretanto, pode-se enfatizar que González já havia lido sobre a Micro-História no “Traité de sociologie” organizado por Georges Gurvitch. Braudel também já havia mencionado a Micro-História, contudo, com certa negatividade. Citamos também o livro “A Tabela Periódica” do Italiano Primo Levi. “Zaharoff Lecture” de Richard Cobb que se utiliza das palavras de Raymond Queneau em contraposição aos fatos cotidianos, Cobb não expõe explicitamente Micro-História, e sim, a historiografia menor.

A micro-história não forma uma escola, ou um corpo de proposições unificadas, muito menos uma disciplina autônoma. Ela é uma prática de historiadores, que enfrentam ao longo de caminhos diversos, de obstáculos e incertezas uma experiência de pesquisa. São as novas formulações que começam a surgir e que formam esse grupo, mesmo a partir de heterogeneidades. O que significa dizer que ela não constitui um grupo homogêneo.

Mas a micro-análise não se baseia única e exclusivamente na redução da escala. A micro-história representa muito mais do que isso. O grupo que se reuniu em torno deste ideal – sendo este muito mais uma prática do que propriamente um trabalho – e formulou a revista Quaderni Storici, pela editora Einaudi, de direção de Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, propunha uma produção historiográfica que ia muito além de uma escala menor de pesquisa, pois, devido ao fato de sua heterogeneidade, a micro-história pode se conectar às mais variadas formas teóricas, além de propor uma análise cuidadosa do micro. Não se trata de uma visão simplista sobre aquilo que é menor, mas de uma abordagem sistematizada, o que requer um considerável número de fontes para que o trabalho micro-analítico seja possível, além de construir significativa importância a estes micro-acontecimentos.
A corrente italiana se vincula ao modelo francês, mas expõe uma interrogação sobre a história social e sua construção de objetos de estudo. Ao contrário dos Annales, que produzem a partir de um tipo de história que tem uma amplitude mais geral, ou seja, aquela que apresenta maior generalidade – para não dizer que é aquilo que se repete, pois sabemos que a história NÃO se repete, apresentando certa relatividade, aspecto muito bem abordado por Edward Carr, em seu livro “Que é História; mesmo quando está em uma escala mais geral, diferencia-se das ciências exatas e naturais por não apresentar regularidade; filósofos subjetivistas como Wilhelm Dilthey, por exemplo, já haviam se rebelado, no início do século XX, contra tal modelo esquemático, positivista, causal e fechado; mais tarde, os Annales irão romper com a história positivista –, sendo macro-analítica, em análises estruturais, quantitativas (tabelas, gráficos, números), a corrente da micro-história propõe o estudo a partir micro-análise. Isso ocorre até mesmo pelo fato de que a história macro, ou seja, a história social, hegemônica, de certo modo, não estava mais dando conta das diversas mudanças e crises sociais que surgiam cada vez em maior grau, nas décadas de 70 e 80.
É importante neste trabalho levantarmos as visões de alguns autores importantes sobre o conceito de micro-história e tentarmos achar formulações comuns entre as diversas visões.
Carlo Ginzburg
Primeiramente, a visão de Carlo Ginzburg. Este, sendo um dos mais importantes nomes na micro-história, expõe que a micro-história italiana nasce da oposição aos modelos mencionados neste trabalho, como o norte-americano, o mexicano e o francês, que são mais voltados a apresentarem uma “petite histoire”, ou seja, uma história menor, ou pequena. Ginzburg diz que a micro-história não se limita à pequena história, mas elenca e costura os diversos rastros a fim de formar uma narrativa que produza conhecimento histórico (iremos abordar com maior número de detalhes a questão da narrativa na micro-história mais tarde, também a partir da visão dos autores abordados sobre tal aspecto da micro-análise).
Com a redução da escala, produz-se uma nova forma de trabalho, aquilo que Ginzburg chamou de “paradigma indiciário”. Tal forma se caracteriza justamente pela busca dos diversos indícios que passam despercebidos pela história de visão totalizante, mas que estão dentro da mesma. A intenção do trabalho com a micro-história é, além de localizar fatos de grande especificidade, estabelecer diálogo entre a escala macro e micro. Não se está anunciando um todo de um longo tempo, como é possível encontrar nas linhas teóricas de Fernand Braudel, mas sim um fragmento de dentro de uma escala macro até então não percebido ou desconhecido.
Segundo Ginzburg, a micro-história italiana não examinou somente temas de importância notória, mas também âmbitos inferiores, desconhecidos, da história local. O que não significa dizer este tipo de trabalho é caracterizado somente pelo estudo ou construção de objetos de estudos voltados para a questão do local. O quesito local é apenas um dos objetos que podem ser estudados pela micro-história. Os objetos de estudo podem ser os mais variados possíveis, como comportamentos de determinados grupos, trajetórias e ação de certos indivíduos, fatos variados desconhecidos, entre outros. Mas não com o descaso de estudar o micro pelo micro. Deve haver sempre a preocupação de estudar o micro a partir de um olhar abrangente.
Atribuir significativa importância a um fato, que não passaria de um mero detalhe, que poderia ser uma simples nota em um determinado texto, e transformá-lo em um livro, por exemplo. Além de conectá-lo a outros rastros e maior ou menor importância, tornando a análise do social, pela perspectiva micro, mais completa. É justamente o que ele expõe em “O Fio e os Rastros”. A idéia de um fio que conduz aos diversos rastros na construção de um objeto de pesquisa. Um fio que direciona o pesquisador pela ótica historiográfica, a partir de rastros que se ligam a um todo mais complexo. Ou seja, rastros não percebidos pela visão geral, aquela que é macro-analítica, na construção do fato histórico, a partir da perspectiva micro-analítica, pelo estabelecimento de uma espécie de rede de relações entre os rastros, rede esta que também se conecta a um contexto amplo, a partir da formulação de uma narrativa. Os rastros, Ginzburg diz, que são o limite do micro-historiador. A própria fonte, o documento. Limite este que deve ser respeitado no trabalho da micro-análise.
Ginzburg detalha ainda mais a situação da produção historiografia na época, marcada pela história da mentalidade, que por muito tempo foi relegada à marginalidade, na segunda geração, quando Fernand Braudel era o principal nome dos Annales, mas que foi retomada e intensificada por historiadores como Jacques Le Goff. E pelo fato da micro-história surgir praticamente no mesmo tempo em que a história das mentalidades estava em progressiva ascensão, era comum ocorrer o erro daquela com esta. A micro-análise é muito mais profunda e detalhada do que a análise da história de estruturas mentais.
Jacques Revel
Para Jacques Revel a micro-história surgiu como uma reação contra a hegemonia da história social. Ele tenta entender a micro-análise dos italianos a partir da história social, partindo da concepção de que a micro-história implica reformular concepções, procedimentos e exigências da história social. Para Revel a micro-história tem o valor de um sintoma historiográfico uma reação contra a história social á francesa, econômica, marxista e estruturalista que é a mais criticada, por essa estudar o social a partir da história serial, aquela que apresenta certa regularidade, onde a importância está nos grupos, no coletivo. Desta forma, a duração escolhida para estudar esses temas é sempre a longa. O grupo da micro-história vai contra essa concepção de que só é possível estudar o social a partir de grupos e não indivíduos isolados.
Ainda que Ginzburg reconheça a micro-história italiana baseada no modelo francês, é possível perceber que Revel enfatiza que os italianos não produzem o mesmo trabalho dos franceses, sendo outra forma de pensar, de trabalhar com o passado que está em harmonia com os variados contextos dos anos 70 e 80. Revel também fala sobre a questão da redução da escala de análise, mas explica que tem que haver uma integração a partir do micro com o macro, pois o micro tem fios que se conectam com o macro. Para dar sentido ao micro deve integrá-lo ao macro, para o micro adquirir inteligibilidade, e essa integração quem constrói é o historiador.
A abordagem micro-histórica busca enriquecer a análise social tornando suas variáveis mais móveis, mais numerosas, mais complexas. As abordagens vão tornar a análise mais complexa, integrando os mais diversos e diferentes materiais. Para Jacques Revel é a variação de escalas que importa, não é uma análise em detrimento a outra é as interligações entre o micro e o macro.
Jacques Revel salienta em seu texto que a abordagem micro-histórica apesar de ter se tornado muito comentada e debatida entre historiadores nos últimos anos, é algo restrito, onde são poucos os grupos a se utilizar desse método e que a problemática e a interpretação da micro-histórica não foi homóloga em toda parte, ao contrário e cita como exemplo dessa diferença o caso da micro-história americana e francesa, onde a americana, por meio de Ginzburg vê a micro-história como um paradigma indiciário, onde a pesquisa se dá através da busca por indícios, pistas, sinais para decifrar uma realidade. Já a americana observa a micro história como uma interrogação da história social e a construção de seus objetos.
Revel defende que a micro-análise pode levar mais perto do real, pois sua perspectiva é mais rica, sendo mais complexa já que se inscreve em um maior número de contextos diferentes. E é justamente este um dos pontos mais marcantes do texto “Jogo de Escalas” de Revel. Ele afirma a importância de se localizar o contexto do objeto que se trabalha, pois isso permite uma boa análise do social. Para ele, não pode ser um trabalho preguiçoso caracterizado em fazer o já pensado, mas selecionar quais os contextos que fazem parte do objeto de pesquisa. Há vários contextos, contudo, é importante selecionar e relacionar aqueles que são necessários para a construção da análise. Ela enfatiza que este trabalho de contextualização múltipla deve ser feito pelos micro-historiadores. E dentro desta seleção, perceber que há várias maneiras de um ator histórico participar das dimensões analisadas, havendo diversas variações entre os níveis locais e globais. Assim, é possível identificar a ligação de um indivíduo com as demais instâncias que o rodeiam, reforçando como característica da micro-história a relação do individual, muitas vezes não notado, com o coletivo, e evidenciando que o indivíduo não é nulo.
Revel sustenta como método de trabalho da micro-história a construção do objeto de estudo por uma validação empírica. O que significa afirmar que a corrente micro-historiográfica se liga muito às fontes da pesquisa, aos diversos arquivos utilizados. Tal característica está diretamente relacionada com a questão contextual, já que são as fontes que contribuem consideravelmente para o entendimento de um determinado contexto.
A Narrativa é algo de extrema importância na prática micro-histórica. É importante neste trabalho contextualizar a retomada da narrativa na produção historiográfica, a partir da década de 70 do século XX para que em seguida possamos falar da sua utilização na micro-história.
Peter Burke, em sua obra, “A Escola dos Annales – A Revolução Francesa da Historiografia” aponta, a partir da viragem antropológica na escola francesa, o retorno da história política e da narrativa, possibilitados pelo amplo contexto da época, marcado por inúmeros acontecimentos e repercussões no campo social, como as diversas guerras – Vietnã, Afeganistão –, Crise dos Mísseis, Primavera de Praga, Revolução Cubana, Patrocínio de ditaduras e muitos outros, dentro de um mundo marcado pela bipolaridade política da Guerra Fria.
Essas reações dentro dos Annales se constituíram contra todo o determinismo adquirido pela escola, principalmente na segunda geração, com Braudel, quando se apoiavam numa visão negativista sobre a narrativa, considerada como algo não-científico, cuja sua eliminação é indispensável para o estatuto científico da História. O contexto social variado possibilitava assim a retomada de linhas de pensamento antes esquecidas. A prática da narrativa frente à história quantitativa, tendo como adeptos, por exemplo, Philippe Ariés, sem sombra de dúvidas é a mais marcante. Mais até do que a retomada da produção da história política, pois esta é trabalhada dentro da ótica da narrativa. É importante ressaltar que essa narrativa não é a mesma que foi combatida por Marc Bloch e Lucién Febvre, ou seja, a narrativa factual. A nova narrativa não se preocupa apenas com o texto escrito, mas sim com o caráter epistemológico do que é produzido. Há o intuito de atribuir sentido ao passado e a explicação de seus fenômenos.
E é esta nova narrativa que se manifestou em várias linhas historiográficas da época, mas tem um grande impulso na até então muito nova micro-história. Esta, como já abordado neste trabalho, surgindo a partir da crise de confiança na história social hegemônica, que não estava dando conta de entender os cada vez mais diversos fenômenos daquela década. Como a micro-história reduz sua escala de observação para tentar identificar aquilo que não foi percebido numa escala macro, a narrativa é primordial, pois por meio dela é possível obter uma descrição detalhada e minuciosa do objeto estudado. Por isso, a micro-história é narrativa. Ela foca o individual, o particular, com isso se volta para a narrativa.
Na micro-história a narrativa vai ter um papel fundamental, pois é através dela que o historiador consegue conectar os indícios encontrados nas fontes e ligá-los para explicar, contar o acontecimento. Ela constitui a própria explicação e esta pode ser variada, conforme a interpretação do historiador, pois o discurso permite varias formas de abordagens e visões sobre um mesmo indivíduo ou acontecimento analisado. O que quer dizer que uma história pode ser narrada pelas mais variadas formas.
A narração micro-histórica se preocupa com a forma na qual o objeto será exposto e a participação principal do historiador na construção e interpretação do mesmo. A preocupação em torno das anomalias do documento, pois ele é apenas uma reflexão do passado e não o passado em si.
Qual a diferença da narrativa do historiador e do romancista? Existe uma distinção, mas qual é? Não é somente a questão de uma ser ficcional e a outra não, até porque de certa de forma o historiador também cria e participa da invenção do próprio tempo. A principal distinção seria, então, que o historiador apesar de poder criar os acontecimentos, está sempre se embasando nas fontes para compor seu trabalho, por onde deve procurar se limitar, diferentemente do romancista ou ficcionista. Embora construa o fato, o historiador deve saber limitar a sua narrativa às possibilidades que o documento lhe oferece.
Mas diferentemente de uma concepção que via a narrativa histórica como um simples formulário, Jacques Revel bem falou que há formas expositivas na construção do objeto e os micro-historiadores se utilizam de diferentes métodos narrativos, como um inquérito judicial, no caso de “O queijo e os vermes” (Ginzburg), ou, como no caso e outra obra exemplificada também no texto de Revel, “Enquête sur Piero della Francesca” (Ginzburg), sendo uma espécie de trama policial. O micro-historiador possui preocupação em construir o seu objeto, conforme sua interpretação, e a escolha de uma forma expositiva da narrativa também pode ser relacionada como procedimento do projeto de pesquisa e experiência histórica.
O historiador Henrique Espada Lima, da UNICAMP, baseado nas discussões de Carlo Ginzburg, destaca o quão significante é a narrativa no trabalho micro-historiográfico. Ele foca no “paradigma indiciário” de Ginzburg e faz uma reflexão sobre a abordagem principal escolhida para o texto “O queijo e os vermes”. Esse livro chega a ser comparado por Henrique a um quebra-cabeça, algo que vai ser montado de forma bem minuciosa e detalhada. Caso uma peça se perca, o jogo não se conclui. “Cada peça é analisada e testada”. As freqüentes perguntas e hipóteses, que antes sofriam com certa insegurança sobre as respostas, tornam-se mais seguras por esta profunda análise. “Em termos narrativos, tanto a linearidade quanto a onisciência do narrador saem do livro abaladas. O ganho interpretativo, entretanto é inegável.”

"Os nexos entre história e narração faziam parte do argumento desenvolvido em sinais, no qual Ginzburg ligava diretamente a história a outras formas de inteligibilidade da realidade: o historiador, como o caçador primitivo, aprendia a capturar a partir de pistas, rastros muitas vezes fugidios os fios de uma narrativa." (p.102)

Ele leva em conta a questão do rigor na produção do conhecimento gerado pelos indícios. Outra questão ressaltada, dessa vez por Auerbach, é o tempo. Henrique expõe essa validação: “O tempo da cena se amplia na narrativa, todo o movimento que se vê nela é interior, realiza-se na consciência das personagens, presentes ou não à cena.” O texto parece que perde sua objetividade, o narrador ganha seu espaço na história que está sendo construída, “como quem duvida, interroga e procura.” Será que essa intenção de subjetivar, mesmo que de forma relativa, dará certo? Há alguma essencialidade ao definir a realidade propriamente dita nessa subjetividade presente no texto. As respostas estão na obra de Woolf: “A intenção da aproximação da realidade autêntica e objetiva mediante muitas impressões subjetivas, obtidas por diferentes pessoas, em diferentes instantes, é essencial para o processo moderno que estamos considerando.”
As narrativas inventadas no século XX são as mesmas utilizadas na atualidade, principalmente por favorecer as formas de raciocínio e de comunicação precisas pelo historiador, em prol da relevância de seu trabalho. A narrativa é algo indispensável para o historiador. Henrique deixa claro que cabe ao historiador escolher o modelo de narrativa a ser aplicado ao seu trabalho para a devida produção historiográfica, ao expor diversos autores que se utilizaram de recursos estilísticos em suas produções – como, por exemplo, Woolf, que se utiliza de uma linha literária romancista – entrando em concordância com visão de Jacques Revel sobre as formas de narrativa, algumas já citadas acima, quando falamos como era a narrativa das obras de Ginzburg. Mas é importante reforçar mais uma vez, conforme Ginzburg, que o historiador conheça sua limitação para não entrar no campo ficcional.
Essa narrativa é marcada por significativa especificidade, sendo bem mais detalhada e descritiva do que no âmbito da história das mentalidades, que possui um caráter mais generalizado. O reforço desta consideração é importante, uma vez que muitas pessoas, inclusive historiadores, caem no erro de confundir a micro-história com história das mentalidades.
Após Falarmos sobre a questão da narrativa, podemos concluir, a partir da visão dos autores apresentados, que a micro-história não se constitui somente por características como uma prática em que se reduz a escala de análise, mas que propõe a localização de rastros e ligação deste, através da linha traçada por aspecto narrativo. O historiador é um caçador, cada pista, sinal chega mais perto de sua presa (passado). Pois nada é dado, como diz Ginzburg, toda a pesquisa realizada ocorre a partir das fases construídas. Toda essa metodologia trabalhada em torno da Micro-história transforma-a em uma “congestão de revelações”, o que significa dizer que o historiador deve costurar as diversas pistas encontradas na sua investigação, o paradigma de indícios que o levarão a construir seu objeto. Objeto este não percebido por uma escala macro.
Assim, o objetivo da micro-história não é apenas localizar algo não percebido, mas fazer deste mesmo algo um instrumento de inteligibilidade interativa com um contexto maior, visando a construção social. Daí a importância do micro integrar o macro, uma peça do Puzzle, como Revel e Henrique Espada falaram. O micro aproxima o historiador do real e é justamente da junção do micro e o macro que se origina uma construção histórica completa, uma vez que riqueza e complexidade da micro-análise revela detalhes antes não percebidos um processo macro-analítico. Ou seja, o diálogo é estabelecido entra as instâncias gerais e específicas e a narrativa descritiva permite isso. E ainda que, como Revel afirma, ela faça frente à hegemônica história social, a proposta micro-histórica não visa o prejuízo do macro, mas busca tornar a análise histórica do social mais enriquecida através da reciprocidade das escalas e localização de contextos necessários à pesquisa proposta.
A forma de expor o conhecimento construído se dá através da narrativa, que como vimos, pode se utilizar de recursos literários e estilísticos variados, sendo isso também considerado uma forma experimental da construção histórica e intrínseca ao processo micro-análitico. Assim, podemos considerar a análise histórica da corrente micro como uma contribuinte para o conhecimento mais profundo da realidade social.

Referências Bibliográficas:

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BRAUDEL, Fernand. Escritos sobre a história. Editora Perspectiva: São Paulo, 1978.

BURKE, Peter. A Escola dos Annales 1929-1989: A Revolução Francesa da Historiografia. 2ª Edição. UNESP: São Paulo, 1992.

CARR, E. H. Que é História? Paz e Terra: Rio de Janeiro, 1996.

DOSSE, François. A História em Migalhas. Dos Annales à Nova História. UNICAMP: São Paulo, 1992.

GINZBURG, Carlo. O Fio e os Rastros – Verdadeiro, falso, fictício. Companhia das Letras, 2007.

LIMA, Henrique Espada. Narrar, pensar o detalhe: à margem de um projeto de Carlo Ginzburg. ArtCultura (UFU), v. 9, p. 99-111, 2007.

REVEL, Jacques. Jogos de Escalas – A Experiência da Microanálise. FGV: Rio de Janeiro, 1998.

Site da Imagem
(GINZBURG): http://wp.clicrbs.com.br/fronteirasdopensamento/files/2010/11/ZILE.jpg, acesso em: 14.12.2011

Site da Imagem
(REVEL): http://noticias.academia.cl/?p=974

Site da Imagem
(mão escrevendo): http://vidawaldorf.blogspot.com/2011_08_01_archive.html

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