quinta-feira, 9 de junho de 2011



Por Vanir Junior

Os Francos foram o primeiro povo germânico a se converter ao Credo Niceno, em fins do século V, através de Clóvis, que consolidou a dinastia Merovíngia reunindo as tribos sob seu comando. O nome “merovíngio” foi dado em homenagem ao herói da Guerra dos Campos Catalaúnicos que lutou contra os Hunos, Meroveu, de quem Clóvis descendia. Assim, devido à conversão, Paulo André Leira Parente afirma que “os francos ganhavam maior destaque ao manterem-se fiéis à Igreja Romana, diferente de outros reis de origem similar, que seguiam a doutrina ariana.” (CEDERJ p.98). A dinastia merovíngia ainda que governasse por um tempo considerável, não possuía poder de liderança política efetiva sobre todo o reino franco. Segundo Parente “era possível encontrar lideranças políticas menores, hierarquicamente abaixo dos merovíngios, mas na prática tão ou, por vezes, mais poderosas do que estes.” (CEDERJ p.98). Os Carolíngios, por exemplo, eram os comandantes da Austrásia e mordomos do palácio merovíngio e cada vez mais ascendiam política e militarmente, mediante a fraqueza política dos merovíngios. José Roberto de Melo diz que:

“Todavia, eleitos pela aristocracia, os mordomos eram por sua vez dependentes dela e, se como defensores dos Merovíngios acabaram por dominá-los, a sua presença em cada um dos reinos lançou-se nas tradicionais querelas da família real, além das rivalidades motivadas por suas ambições pessoais.” (1990. p.10)
.
Já no século VII, a fraca autoridade dos Merovíngios resultava no fortalecimento da nobreza sobre os reis da dinastia. A verdade é que desde a morte de Clóvis, seus filhos dividiram o território, que somente será reunificado por Dagoberto, sendo este o último rei dos merovíngios a exercer certa autoridade real. Mas seus descendentes não conseguem manter a autoridade e são conhecidos como reis indolentes. Mais uma vez, nas palavras de José Roberto de Melo:

“E, culminando, a proverbial apatia da estirpe merovíngia no decurso do século VII, valendo aos seus membros o apodo de reis indolentes, quase fez sossobrar o Estado franco. Não obstante, o destino favoreceu com o surgimento de uma linhagem de eficientes mordomos do paço, no reino da Austrásia, o quais, tomando nas mãos as rédeas do poder, lançaram as bases do futuro Império Carolíngio.” (1990. p.7).

E quem assume praticamente todo protagonismo político são os Major Domus (Mordomos). Assim sendo, a partir dessa maior projeção política dos mordomos, já em 732, Carlos Martel, também mordomo, vence os muçulmanos na Batalha de Poitiers. Este foi, segundo Parente, “um passo importante no processo de aproximação entre Carolíngios e a Santa Sé...” (CEDERJ p.99). Segundo Hilário Franco Jr., Carlos Martel passa a ser considerado um salvador da Cristandade ao vencer o infiel muçulmano. Ele adquire grande poder aristocrático.
Com a morte de Carlos Martel, há uma série de manobras políticas e disputas entre seus filhos Carlomano e Pepino. Primeiramente, eles se unem contra Grifo, filho do segundo matrimônio de Martel, que também se expõe a luta política. Mas com o agravamento da disputa entre Pepino e Carlomano, novos episódios de lutas se sucedem. Pepino liberta Grifo da prisão, que havia sido colocado lá por Carlomano, e concede terras a ele. A retaliação de Carlomano é instituir no poder o rei merovíngio Childerico III. Contudo, Carlomano opta pela vida monacal e evita assim um conflito mais sério.
Pepino, através de sua influência política, envia embaixadores até o Papa Zacarias, perguntando quem realmente deveria ser rei: Childerico, que não tinha capacidade para conter as revoltas políticas e impor ordem ao reino, ou ele, que tinha autoridade sobre todo o território. O Papa opta por ele e Chiderico é deposto e Pepino, o Breve, sobe ao poder. Temos assim a substituição da fraca dinastia dos Merovíngios pela dinastia da Austrásia, os Carolíngios em 751. Nas palavras de Jacques Heers:

“A ascensão de uma nova dinastia franca, em 751, assinala o êxito dos prefeitos do palácio da Austrásia e o restabelecimento em seu proveito da autoridade real enfraquecida ou desprezada pelas grandes famílias.” (1974, p. 40).

Pepino é coroado pelo papa em 754, conforme tradição bíblica. Hilário Franco Jr. diz que “Pepino, o Breve, quando precisou legitimar seu poder, recorreu a uma cerimônia calcada no antigo testamento e praticada no reino visigodo desde o século anterior: a unção régia...um rito de passagem que sacralizava o monarca, tornava-o um eleito de Deus. Desde então, todo rei para ser visto como tal, precisou ser submetido àquele rito.” (p.50). Pepino, em troca da deposição do último soberano merovíngio, lutou contra os lombardos e retomou as terras e as entregou para a Igreja (Patrimônio de São Pedro), consolidando assim o pacto franco-papal, sendo reforçado mais tarde pela sua consagração. Segundo Jerome Baschet, Pepino “beneficia-se do acordo com o bispo de Roma, que procura apoio da potência franca contra os lombardos que ameaçavam invadir Roma” (2006, p.70). Além disso, Pepino instituiu o pagamento obrigatório de dízimos.
Com a morte de Pepino em 768, novamente se têm novos impasses políticos. Disputas entre Carlos e Carlomano. Entretanto, Carlomano morre em 771, deixando terreno livre para Carlos. Segundo Parente, quando isso acontece, “realeza e Igreja se aproximam ainda mais quando Carlos derrota definitivamente os lombardos em 774, tornando-se seu réu e entregando parte das terras conquistadas ao papado, garantindo a formação do Estado Papal.” (CEDERJ, p.100). Ou seja, Carlos Magno além de garantir o domínio da Igreja sobre os territórios já doados por Pepino, ainda se lançou contra a oposição que vinha do leste, os saxões, avaros, eslovenos e croatas, permitindo uma grande expansão do Reino Carolíngio. Além disso, enfrentou novamente os muçulmanos, batalha que não produziu muitos resultados. Embora tivessem dominando alguns territórios na Península Ibérica, como a Pampeluna e Barcelona, foram atacados por Bascos montanheses em seu regresso (Canção de Rolando).
As dominações de diversos povos somadas das conversões em massa afirmavam a perpetuação do pacto Franco-Papal. Era uma aliança política que era mantida entre Francos e Santa Sé e ambos se fortaleciam. Assim, Carlos Magno, ao forçar vários povos a se converterem ao cristianismo, estava cumprindo seu papel como defensor da Cristandade. Conforme Jacques Le Goff:

“No leste, Carlos Magno deu início a uma tradição de conquista em que massacre e conversão misturavam-se – a cristianização pela força que a Idade Média iria praticar por muito tempo.” (2005, p.44).

O grande território fez com que Carlos Magno criasse um sistema por onde buscava manter sua autoridade em toda extensão de terras e povos conquistados. Primeiramente, ela cria um conjunto de leis escritas, conhecidas como Leis Capitulares, ultrapassando a tradição meramente oral. Além disso, dividiu administrativamente o território em Condados, Marcas e Ducados. Uma rede de funcionários regionais era responsável pela administração local (VASSI DOMINICI – Condes, Marqueses, Duques). Deveriam fazer com que fosse cumprida a leis carolíngia em todo o império. Instituiu também os MISSI DOMINICI, duplas de oficias (um agente laico e um clérigo) que fiscalizam a ação dos VASSI. Tudo isso fez parte da rede administrativa formulada por Carlos Magno. Para tentar manter a administração sólida, em 785, Carlos Magno reforça a prática de juramento de fidelidade de seus vassalos. Estes juravam governar porções do território em nome do soberano. E para intensificar ainda mais a relação de fidelidade, há o aspecto da sacralização do juramento. Quebrar o juramento seria o mesmo que trair a Deus. Mais tarde, instituiu que todo habitante masculino desde os 12 anos deveria jurar fidelidade ao Imperador. Contudo é importante ressaltar que tais juramentos vinham desde antes de Carlos Magno. Em 757, por exemplo, é possível identificar o juramento de Tassilo III da Baviera a Pepino, o Breve. Já é possível identificar a utilização de relíquias santas em tal juramento, sendo o documento dessa encomendação um dos mais antigos em que um nobre se encomenda como vassalo de um rei. Assim, Carlos Magno apenas retoma e reforça tal caráter. O que podemos identificar já no Império Carolíngio é a Feudo-Clericalização, que mais tarde adquirirá sua própria lógica para o fortalecimento dos senhores locais.
Os bem sucedidos feitos políticos de Carlos Magno levaram no Natal de 800, quando ele visitava Roma, a sua coroação pelo Papa Leão III, estando este último em apuros políticos, mas que recebeu proteção de Carlos Magno. Segundo Paulo André Leira Parente:

“as intenções da Santa Sé não devem, portanto, ser ignoradas. Em primeiro lugar, o Papa, ao ser aquele que coroou Carlos Magno, estabelecia publicamente que a dignidade imperial gozada pelo rei franco provinha diretamente da Igreja, pelas mãos de seu maior representante. O crescimento de poder e autoridade carolíngios, balizados por conceitos e tradição religiosa cristã, incorria em menor risco de suplantar os poderes espirituais sediados em Roma. Além disso, foi a oportunidade encontrada pelo Bispo de Roma para romper, perante o enfraquecimento dos herdeiros do Império Romano do Oriente – com a crise iconoclasta, as invasões muçulmanas a Constantinopla e a ausência de um basileus, já que quem ocupava o trono final do ano 800 era uma mulher –, os laços com Bizâncio. Com um novo imperador no Ocidente, a universalidade encarnada pelos basileus bizantino se dissipava, levando consigo a submissão papal à autoridade religiosa bizantina, sendo capaz de intensificar seus poderes perante a Cristandade Ocidental.” (CEDERJ, p.103).

O Papa via na instituição de um Imperador com autoridade sobre todos uma forma de conquistar soberania temporal no Ocidente e no Oriente. Além disso, precisava de alguém forte politicamente para acabar com seus inimigos políticos. Um Imperador com sua soberania poderia fazer isso. A coroação de Carlos Magno é a salvação do Papado. Segundo Jacques Le Goff:

“Chefe de um Estado temporal, o Patrimônio de São Pedro, ele desejava ver esta soberania temporal corroborada por um rei superior a todos os demais – tanto em título quanto de fato. [...] o papa Leão III viu uma tripla vantagem em dar a coroa imperial a Carlos Magno. Aprisionado e perseguido por seus inimigos em Roma, ele precisava ver sua autoridade de fato e de direito por qualquer um que pudesse impor autoridade a todos, sem contestação: um Imperador.” (2004, p.45).

A Igreja se une ao Império dentro daquilo que ficou conhecido como Agostinianismo Político. Há uma espécie de Cesaropapismo, pois Carlos Magno, mesmo havendo predomínio da doutrina gelasiana no Ocidente, submete a Igreja ao seu comando. O Imperador também é sacerdote e intervém em assuntos clericais. “A aliança entre a Igreja e a realeza carolíngia dá origem à nova ideologia, que faz do soberano o chefe designado por Deus para conduzir até a salvação o novo povo eleito.” (RIBEIRO, 1996, p.95 in CEDERJ, p.108). Entretanto, afirmando a tentativa de superioridade política do Império, Parente diz:

“Contudo, ainda que o elemento de poder político sacralizado estivesse na consciência de Carlos Magno, que reconhecia a primazia espiritual do Papa, era a ele que cabia na posição de imperador, governar o rebanho formado pela Cristandade. [...] O imperador buscava encarnar o dever como dirigente do mundo cristão, tomando para si a responsabilidade a ponto de fazer sombra à própria autoridade papal, interferindo inadvertidamente na organização da Igreja e na nomeação de bispos e outros cargos de importância em sua hierarquia.” (CEDERJ, p.109)

De qualquer maneira, é estabelecida uma forte relação entre Igreja e Carolíngios. Carlos Magno, ao defender a Igreja, ganhava uma espécie de legalidade – este passava a ser legitimado – do seu governo pela esfera divina, que era detida pela Igreja. Por isso, era uma forma de legitimar seu governo frente aos seus súditos. Há de se lembrar que a teoria gelasiana se afirma na constituição dos reinos bárbaros e a Igreja formula um aparelho estatal favorável aos seus interesses, já que ela assume praticamente todo o protagonismo da política que antes era praticada por Roma (mesmo sendo subordinada de certa forma por Carlos Magno). Há a divulgação de que o poder imperial vem de Deus, mas antes de chegar ao monarca, passa pela esfera pontifícia. Sendo assim, a Igreja tem uma interação cada vez maior com os reinos germânicos que se formam na Europa, instituindo a unção régia (derramamento de óleo - prática do antigo testamento), por exemplo, como forma de afirmar a divinização do poder do Imperador e a cessão do mesmo pela Igreja. Com Carlos Magno não é diferente. Ele busca o apoio da Igreja, que legitima seu poder, e ele a protege.
- Restauração Carolíngia:
Podemos dizer que Renovação ou Restauração Imperial Carolíngia representou o restabelecimento do Império no Ocidente Medieval através da interpenetração de elementos cristãos e a política franca. A concepção de Império, ainda que em um período curto, é retomada, justamente a partir da aliança entre Igreja Católica e Realeza Carolíngia. Aquela foi a primeira vez depois da queda do Império Romano do Ocidente que se programava um poder político de unidade. O título imperial representava, segundo Favier, “uma legitimidade ampliada às dimensões de um poder real largamente superior ao que pode estar compreendido no duplo título de rei dos Francos e dos Lombardos” (FAVIER, 2004, p.497 in CEDERJ, p. 106). O maior protagonismo político pontificial do que propriamente Carolíngio em torno da coroação permitiu a aplicabilidade da essência política imperial romana da antiguidade -- ainda que o Império Carolíngio fosse bem diferente do Romano. Leão III ao coroá-lo disse: “A Carlos Magno Augusto, poderoso e pacífico imperador dos Romanos, coroado por Deus, vida longa e vitória” (1990, MELLO, p.28). Ou seja, ele recebia seu título daquela que se considerava herdeira do Império Romano (a igreja se insere nas vias romanas desde a liberação e oficialização do Cristianismo, sendo a única instituição romana a se manter de pé), com a permissão de Deus. Segundo Parente:

“O germe da idéia do poder associado à moral cristã surgira ainda no declínio do Império Romano Antigo, quando muitos acreditaram que seu desaparecimento prenunciava um renascimento sob novo formato, em uma clara correspondência à ressurreição de Cristo, Os fundamentos teóricos de um Império Romano-Cristão, portanto, firmavam-se na idéia de um Império Espiritual.” [...] A concepção cristã do mundo ganha contornos mais fortes com a coroação de Carlos Magno no Natal de 800, reforçando o investimento de um pequeno grau de sacralidade à autoridade civil [...] A unção régia recebida por Carlos Magno, somada à constante referência ao imperador Constantino [...]transformava o panorama político medieval.” (CEDERJ, p.108).

Então, as inovações da restauração são várias: primeira vez que um imperador é coroado pelo PAPA, Carlos Magno passa a ser o braço armado do Império (uma ameaça contra o papado era uma ameaça contra o Império), conversão em massa pelo uso da força de vários povos que não aceitavam o cristianismo (Saxões, Lombardos, Frisões, Ávaros, entre outros), oposição de focos de poder, com Carolíngios se rivalizando a sudoeste com os Muçulmanos na Península Ibérica) e os Bizantinos no Oriente, centralização do poder através de uma administração de condados e marcas que deveriam fazer valer a autoridade carolíngia em todo o Império, sacralização e ritualização dos acordos de vassalidade.
A Restauração representou, juntamente com a concepção de resgate imperial, a idéia de uma unidade de todos os cristãos sob um único poder de salvação: A Igreja e o Estado em um só corpo universal. É aquilo que, segundo abordagem de Alderi de Souza Mattos, foi chamado eventualmente de Corpus Christianum.

- Renascimento Carolíngio:
O estabelecimento de um aparelho administrativo criado por Carlos Magno foi acompanhado por uma reforma de cunho cultural em que o próprio imperador fomentou de maneira significativa tal empreendimento. Tal reforma cultural ficou conhecida como Renascimento Carolíngio, e pode também ser identificado como uma repercussão de como Carlos Magno geria seu poder.
Tendo o Palácio Imperial como centro de convergência mestres letradas, como Alcuíno, Teodulfo e Paulo Diácono, o Imperador promovia mobilização intelectual, que possuía diversas características em torno de manifestações intelectuais, literárias e culturais. A própria corte, mola que impulsionou o movimento, realizava na presença do imperador diversos debates intelectuais a respeito de cultura e religião.
Escolas foram fundadas para que se aprendesse a ler e a escrever (voltadas primordialmente para o clero, mas também havia instrução para laicos), houve estímulos à educação, além da conservação das obras da antiguidade greco-romana. Não se limitando a isso, segundo Parente:

“estabelecia-se uma “arte oficial”, composta por mosaicos e mármores localizados nos palácios imperiais e episcopais, miniaturas (nas quais se emprestavam temais ornamentais da Roma Antiga) e a escola palatina de Carlos Magno e outras (em Reims e Tours).” (CEDERJ, p.115).

A arte deste renascimento voltava-se para o clássico brilho do Império Romano, até mesmo pela tentativa de resgate de concepção de Império que não se tinha desde a queda de Roma em 476. A preocupação intelectual era de formar bons administradores e bispos, de maneira que o foco era o investimento na instrução, a partir do fornecimento textos para que se dedicassem a estudá-los. José Roberto de Mello diz:

“A preocupação essencial residia no cumprimento de sua missão de governante: a correta preparação do povo de Deus, confiado à sua guarda, para a salvação eterna. Para tanto era mister fosse o clero bem instruído, afinal este era pastor efetivo do rebanho cristão. E, naturalmente, um clero instruído muito contribuía também para melhorar os serviços, não pequenos, prestados por ele ao governo nos campos da política e da administração.” (1990, p.44).

O currículo das escolas era formado por latim, que devido à germanização das línguas, a pessoas tinha dificuldades de aprender, seguido pelo trivium, que incluía a gramática, a retórica e dialética. Primeiramente se dava importância ao aprendizado da língua escrita e falada. O seguinte passo era quadrivium, que incluía aritmética, música, geometria e astronomia. O conjunto formava as sete artes liberais. O texto mais utilizado era a bíblia, em especial o livro de salmos.
É importante destacar a intensificação de scriptoriuns monásticos, já que o livro era um artigo raro. Assim, os monges copistas reproduziam diversas obras, a fim de atender à demanda. Segundo Nelson e Claudino Pilleti, em seu livro “História da Educação (2006, p, 56), “um dos trabalhos mais significativos dos monges no campo educacional foi, sem dúvida, a cópia dos manuscritos. Sem esse trabalho a maior parte das obras do passado não teria chegado até nós.”
Por isso, difunde-se uma nova forma de escrita mais clara de ser lida, que é denominada “minúscula carolíngia”, como resultado de uma evolução da escrita romana, mas com um diferencial, pois a escrita com letras minúsculas e separada facilitou a preservação de vários textos deixados desde a antiguidade clássica. Isto foi evidente na segunda metade do século VIII. Segundo Mello, é importante ressaltar também avanços na decoração dos livros, bíblias e evangeliários que eram ornamentados com várias iluminuras detalhadas de cenas do imaginário religioso, como, por exemplo, a Jerusalém celeste. Houve avanços artísticos na arquitetura, que passou a empregar mais o uso da pedra. Além dessas, as pinturas e mosaicos evidenciaram o avanço cultural da época.
O renascimento de tornou mais intenso após a morte de Carlos Magno. Contudo, sofreu modificações, pois a corte deixou de ser o centro intelectual e os mosteiros ascenderam como novos centros de inteligência. Passa assim haver uma espécie de monopólio do saber pela igreja. Luís, seu filho, mesmo interessado em preservar a cultura, parece não ter sido hábil para manter estrutura necessária para isso. Os escritores, sem o patrocínio, se deslocam para os mosteiros. Tais locais ofereciam grande suporte aos estudos, devido às suas bibliotecas que armazenaram as obras.

- Sucessores de Carlos Magno e Fragmentação do Império:
Após a morte de Carlos Magno, o Império foi perdendo progressivamente sua “unidade”. Foi se revelando pouco a pouco sua fraqueza estrutural por não haver descendentes que tiveram destreza política suficiente para administrar de maneira eficaz todo aquele território. José Roberto de Mello diz que “com seus descendentes, o edifício laboriosamente construído começou a apresentar já por volta de 829 as primeiras rachaduras, que iriam provocar-lhe o desmoronamento no final do século IX.” (1990, p,50).
E mesmo que a inutilidade política dos herdeiros carolíngios tenha sido um fator importante, não podemos responsabilizá-lo unicamente. Há uma série de fatores que contribuíram para o enfraquecimento imperial e conseqüente desmembramento do Império. Há de se ressaltar que a própria lógica de administração Imperial levou a uma unidade ilusória, que funcionou somente enquanto Carlos Magno estava vivo. Hilário Franco Jr. diz:

“...a Europa católica entrou em outra fase, a Alta Idade Média (meados do século VIII – fins do X).Foi então que se atingiu, ilusoriamente, uma nova unidade política com Carlos Magno, mas sem interromper as fortes e profundas tendências centrífugas que levariam posteriormente à fragmentação feudal.” (2006, p. 15 e 16).

Há de se levar em conta a própria questão sucessória, onde prevalecia o antigo costume da divisão entre os filhos, como se o império fosse um patrimônio da família carolíngia. Parente ressalta que “a noção de poder público inexistia para os povos germânicos, inclusive para o franco” (CEDERJ, p.107). Prevalecia a noção de direito privado, o império encarado como um bem particular, por mais que ainda pairasse sobre a ótica política carolíngia a concepção unitária imperial. Contudo, se intensificava cada vez mais a falta de unidade orgânica do império, agravado pela tentativa de combinações políticas de tradições universalistas, como o cristianismo e a noção de império, com o partidarismo ou particularidades germânicas.
Outro fator foi a difusão da vassalagem. Inicialmente serviu para unir todos a Carlos Magno, mas com o passar do tempo, a relação vassálica serviu para fortalecer politicamente os senhores. Há a formação de um círculo vicioso, pois tal relação consistia na entrega de terras e outros benefícios para que assim pudesse ser válida, através da atuação de condes e marqueses, a autoridade imperial de Magno. Só numa economia agrária, ceder terras implicava conquistar novos territórios. E para isso, dependia do serviço dos condes, marqueses e duques. Ao se intensificar tais relações entre soberano e funcionários para manter os laços já estabelecidos, uma vez que estavam em serviço do imperador, o poder monárquico se enfraquecia. Além disso, os funcionários deveriam formar seu próprio exército, administrar e levantar os impostos estabelecidos pelo império. Assim, eles também recorriam a mesma prática do Imperador: distribuíam benefícios a outros homens.
É importante considerar também o próprio caráter político de Luis, o Piedoso, que tem uma herança tranqüila devido à morte de seus irmãos. A junção de poder temporal e espiritual na figura do imperador fazia dele um chefe militar e ao mesmo tempo um chefe espiritual. Carlos Magno voltou mais para as pilhagens. Já Luís tendeu mais para o aspecto religioso, praticando missões cristãs para manter o império. Sem as pilhagens, não tinha como remunerar os vassalos, necessitando recorrer às terras e benefícios próprios, esgotando sua base de poder político e riqueza. José Roberto de Mello diz que:

“Com Carlos Magno cessara a expansão territorial, é verdade; o trabalho de seu filho nesse campo foi mais o da preservação do território conquistado, prevenindo revoltas a incursões de vizinhos incômodos nas fronteiras, principalmente nos mal definidos contornos dos territórios eslavos e dinamarqueses, que Calos desistira de anexar, mantendo apenas certa suserania...” (1990, p.52).

Em seu programa de governo, Luis transmite a herança do Império aos seus filhos, Lotário, Pepino e Luís. Buscando manter a unidade imperial, deixa o império ao mais velho, Lotário, reino da Aquitânia a Pepino e Baviera a Luis. Lotário teria suserania sobre seus irmãos mais novos. No entanto, não foi suficiente. Os vários confrontos pelo poder impediram de Luis manter unidade no Império. Após sua morte, o território foi dividido. A partilha foi oficializada pelo tratado de Verdun em 843.
Além dos problemas políticos internos, temos diversas invasões a partir do século IX, que também contribuiu consideravelmente para a fragmentação territorial. Georges Duby diz que “não era, absolutamente, como ao fim do Império Romano, migrações de povos nômades que queriam integrar-se a essa espécie de cooperativa de felicidade que era o Império. No século X, no século XI, tratava-se de saqueadores selvagens.” (1998, p.52). Ao norte, temos os vikings vindos da Escandinávia. Pelo mediterrâneo, os muçulmanos investem. E pelo leste, a chegada de Magiares ou Cavaleiros Húngaros.
A disputa política entre os próprios reinos formados após Verdun agravou a situação, pois a necessidade de apoio político levou os reis a conceder cada vez mais benefícios aos grandes. Estes se fortaleciam cada vez mais frente ao rei. Com o enfraquecimento do poder central, a prática de juramento passou a beneficiar os detentores de poderes locais (condes, duques, marqueses). Segundo Mello, “na medida em que, por fraqueza, inércia ou tática política, eles foram deixados nas funções vitaliciamente e transmitindo-as hereditariamente, muitas vezes à revelia do soberano...”(1990, p.51). A fidelidade ganhou uma lógica diferente. Se antes ela era para o monarca, passou a ser voltada para os senhores regionais, em próprio benefício. As terras e serviços públicos passaram a ser utilizados como patrimônio pessoal. As invasões também contribuíram para o fortalecimento político dos senhores, uma vez que na inutilidade dos reis em combater os invasores, muitas vezes eram os próprios representantes locais que se colocavam a frente do campo de batalha para defesa de território, incorporando “funções públicas” ao seus patrimônios. As disputas imperiais e locais agravadas pelas invasões desintegraram o Império e configurou-se uma nova organização social que se estenderá do século X ao XIII: o Feudalismo.

Referências Bibliográficas:

BASCHET, Jerome. A Civilização Feudal – Do ano mil à colonização da América. Editora Globo, 2006.

BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. EDIÇÕES 70: Lisboa.

DUBY, Georges. Ano 1000 ano 2000 na pista de nossos medos. Unesp: São Paulo, 1998.

FRANCO JR, Hilário. A Idade Média Nascimento do Ocidente. Edição 2ª. Brasiliense: São Paulo, 2006

FRANCO JR, Hilário e RUY O, Andrade. O Império Bizantino. Brasiliense: São Paulo, 1986

HEERS, Jacques. História Medieval. Bertrand Brasil: São Paulo, 1974.

LE GOFF, Jacques. Civilização do Ocidente Medieval. EDUSC: São Paulo, 2004

MATOS, Alderi de Souza. A Igreja e Estado: Uma Visão Panorâmica. In: http://www.mackenzie.br/7113.html, consultado em 24/05/2011, às 14:45h.

MELLO, José Roberto. O Império de Carlos Magno. Editora Ática: São Paulo, 1990.

MCEVEDY, Colin. Atlas de História Medieval. Companhia das Letras: São Paulo, 2007

PARENTE, P. A. L. O Império Carolíngio: relações entre poderes espirituais e temporais, séculos VIII - X. CEDERJ (material didático à distância), 2010.

PILETTI, Claudino e PILETTI, Nelson. História da Educação. 7ª Ed. Editora Ática: São Paulo, 2006.

Site da Imagem de Carlos Magno: http://heroismedievais.blogspot.com/2009/01/carlos-magno-modelo-ideal-de-imperador.html

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