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sexta-feira, 25 de setembro de 2015


PROGRAMAÇÃO

3ª feira - 06/10/2015:

10h às 12h – Auditório Paulo Freire (ICHS)
Inscrições e Cadastramento

12h às 13:30h – Almoço 

14h às 16h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Conferência Inaugural da Área de Idade Média 
Profa.Dra.Vânia Leite Fróes (UFF - PPGH)

16:30h às 18:30h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Mini-Curso De duritia cordis iudaici (“Sobre a dureza do coração judaico”): o amadurecimento do ódio na práxis antissemita episcopal visigoda. Século VII.
Professora Doutoranda Cristiane Vargas Guimarães (PPHR – UFRRJ – Pluralitas – Bolsista CAPES DS) 

18:30hs às 19h
Coffee Break 

19h às 21h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Conferência Inaugural da Área de Antiguidade
Prof.Dr.André Leonardo Chevitarese (UFRJ – PPGHC)


4ª feira - 07/10/2015:

9:30h às 11:30h – Auditório Pavilhão de Aulas Teóricas (PAT) 
Mini-Curso Eremitismo e Anacoretismo no Monaquismo Copta. Século IV.
Prof. Esp. Mestrando Jorge Gabriel Rodrigues de Oliveira (PPHR – UFRRJ –Pluralitas – SEEDUC)

12h às 13:30h – Almoço 

14h às 16h – Auditório Pavilhão de Aulas Teóricas (PAT) 
Conferência da Área de Idade Média 
Prof.Dr.Sérgio Alberto Feldman (UFES – PPGHIS) 

16h às 16:30h 
Coffee Break

16:30h às 18:30h – Auditório Pavilhão de Aulas Teóricas (PAT) 
Conferência da Área de Antiguidade Tardia 
Prof.Dr.Gilvan Ventura da Silva (UFES – PPGHIS) 


5ª feira - 08/10/2015:

14h às 16h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Conferência da Área de Idade Média
Profa.Dra.Leila Rodrigues da Silva (UFRJ-PPGHC) 

16:30h às 18:30h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Mini-Curso As relações entre o historiador da Antiguidade e o aporte linguístico: o conhecimento das línguas antigas e a reconstrução histórica do Antigo Oriente Próximo 
Professora Dra Nely Feitoza Arrais (CEIA-UFF/La Salle Institutos Superiores RJ)

18:30h às 19h
Coffee Break 

19h às 21h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Mesa Redonda da Área de Antiguidade
Prof.Dra. Nely Feitoza Arrais (CEIA-UFF/La Salle Institutos Superiores RJ)
Prof.Dra. Gisela Chapot (Seshat- Museu Nacional UFRJ)

COM CERTIFICADO

terça-feira, 22 de setembro de 2015

sábado, 15 de fevereiro de 2014


Por Nathalia Nogueira Bastos


O Programa Institucional de Bolsa de Incentivo à Docência visa incentivar alunos de cursos de graduação a ingressar como docentes na Educação Básica. O programa oferece um espaço para aperfeiçoamento e valorização da formação de professores. Além de contribuir para a formação do discente, o PIBID é um programa que garante a sala de aula como um campo a ser pesquisado.


O PIBID História da UFRRJ visa levar os alunos para escolas públicas de Seropédica com o propósito de buscar nas aulas de história e no cotidiano escolar problemas no ensino que atrapalham o desenvolvimento pleno dos alunos.

Em novembro de 2012 tive a oportunidade de ingressar no programa, que teve seu edital aprovado em 2011 e foi encerrado em janeiro de 2013. Esse edital tinha como coordenadores o Professor Doutor Felipe Magalhães, Professora Doutora Vânia Losada e a Professora Doutora Regina Ribeiro. Atuávamos em duas escolas públicas da cidade de Seropédica, a Escola Municipal José de Abreu (localizada em Campo Lindo) e a Escola Municipal Alice Bruno (próxima ao pedágio da Via Dutra).

Nesse período tive as melhores experiências em sala de aula que a graduação poderia me oferecer. Além de visar uma atuação nas escolas, o programa nos possibilita pensar os problemas encontrados, como problemas históricos a serem pesquisados e solucionados no âmbito acadêmico. O PIBID não é um estágio. É uma forma de contribuir para a formação dos docentes e, ao mesmo tempo, colaborar para melhorar a educação básica pública.

No espaço oferecido pelo programa, nós alunos do curso de graduação em História entramos em sala de aula não apenas como bolsistas, mas sim como pesquisadores daquela realidade, visando identificar os problemas, buscar soluções, desenvolver novas metodologias para as aulas de história e produzir materiais que possibilitem a discussão sobre o Ensino de História no meio acadêmico.

Por isso, se é seu interesse ser professor da Educação Básica, não deixe essa oportunidade passar. O PIBID de História está selecionando alunos do curso para ingressarem no programa. O novo PIBID contará com 80 bolsas e mais quatro coordenadores: o Professor Doutor Felipe Magalhães, a Professora Doutora Regina Ribeiro, a Professora Doutora Gláucia Montoro e a Professora Doutora Renata Rozental.

Então não perca essa oportunidade, as inscrições vão até o dia 18 de fevereiro (terça-feira). Faça a diferença na sua formação e na de vários alunos das escolas públicas de Seropédica! 

Como se inscrever:
Edital PIBID/HISTÓRIA – Seleção de Bolsistas
Carga Horária: 20 horas semanais
Valor da Bolsa: R$ 400,00
Número de Vagas: 80 (oitenta)
Inscrições: 10 a 18 de fevereiro (14:30h às 20h) na secretaria do curso

Critérios para Candidatura:
a) Estar regularmente matriculado(a) no curso de Licenciatura em História, campus Seropédica;
b) ter concluído, preferencialmente, pelo menos um período letivo;
c) não possuir outra modalidade de bolsa, exceto bolsa ou auxílio de caráter assistencial.

DOCUMENTAÇÃO: deverão ser entregues em envelope lacrado com o nome do candidato, os seguintes itens:
A) carta de intenções manuscrita justificando interesse em atuar como professor na educação básica pública (1 lauda);
B) currículo, preferencialmente, modelo LATTES/CNPQ (www.lattes.cnpq.br)
C) apresentar histórico escolar atualizado da graduação;
D) cópias (não autenticadas) do CPF, RG e comprovante de dados bancários – conta corrente (não pode ser conta poupança).

Análise da documentação e divulgação da escala de entrevistas: 19 de fevereiro
Entrevistas: 20 a 25 de fevereiro (horário e local a definir)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Por Gabriela M. Ribeiro e Laíne Mendes

Fotos: Nathalia Bastos


O dia 21 de novembro de 2013 trouxe uma novidade para o curso de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro: a inauguração de um novo grupo de estudo acadêmicos, o Pluralitas – Núcleo Interdisciplinar de Estudos Históricos. O mesmo reúne diversos pesquisadores das áreas de história antiga, medieval e teoria, mas também mantém dialogo com outros campos de conhecimento, como a área de letras e filosofia, por exemplo.


Neste sentido, o Pluralitas traz um diferencial ao propor um ambiente de estudos mais amplo, prezando pela interdisciplinaridade e, deste modo, buscando novos desafios e temáticas dentro do curso de história. O nome do grupo foi inspirado na frase “Principium Pluralitatis est Alteritas” (O princípio da pluralidade é a alteridade) de Boécio (480-525 d.C).

O evento ocorreu no auditório Paulo Freire, localizado na UFRRJ – Campus Seropédica, no Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Professores e alunos colaboradores (14 alunos no total), sob coordenação do discente Vanir Júnior, articularam toda a produção.

O grupo é constituído por professores extremamente competentes. Entre eles estão José da Costa D´Assunção Barros; Luis Eduardo Lobianco, Manuel Rolph, Marcos Caldas, Miriam Coser, Raquel Pereira, Renata Rozental e Rivia Fonseca. O Pluralitas também conta com alunos em sua composição, sendo, desta forma, um grupo acessível ao âmbito discente.

No decorrer do evento houve a apresentação do site www.pluralitas.webs.com. feita pelo Professor Marcos Caldas (IM-UFRRJ). Por meio do site há acessibilidade a fontes, arquivos, índice de bibliotecas, espaço para fórum de debates e envio de mensagens.

O Professor José D’Assunção Barros (IM-UFRRJ) apresentou o grupo NUPEH (Núcleo de Pesquisas Historiográficas), que é voltado ao estudo de teoria, metodologia e historiografias. O grupo de pesquisa está em expansão e tem como um de seus objetivos formar um dicionário com historiadores de todo o Brasil, estando também ligado ao Pluralitas. O NUPEH também é aberto ao âmbito discente. Ponto importante citado pelo professor – e que foi lembrado durante todo o evento – foi justamente a questão da autogestão e a valorização das iniciativas discentes. Esta é uma ideia que é alimentada/incentivada dentro do NUPEH, onde as iniciativas e decisões são feitas pelos próprios alunos. Esta atitude, defende Professor D’assunção, é uma forma de sair da lógica cada vez mais hierarquizada da universidade, “aonde o aluno não aprende a mesma de uma forma aberta, conjunta e de, alguma maneira, interdisciplinar”. O site do grupo é www.nupeh.webs.com.

Após apresentação acerca dos grupos de estudo e pesquisa, seguiu-se a vez dos professores falarem sobre suas pesquisas e trabalhos acadêmicos variados. O primeiro a palestrar foi o Professor Manuel Rolph, que falou a respeito de sua tese de doutorado. Seu tema é relacionado com o conceito de fronteira étnica romana. A fronteira étnica, nas palavras do Professor, se define como um espaço de interações, lutas, afirmações e rejeições, sendo um processo construído pela consciência de alteridade de um grupo, que, geralmente, é embasada em narrativas míticas de origem. É a partir deste processo de fronteira que Roma construiu sua identidade étnica, dando nova significação e ressiginificação ao mundo diversificado existente ao seu redor. É, por exemplo, Roma quem dá nome aos celtas, gregos, germânicos (como é possível ver nas narrativas de Cícero ou Tácito), já que antes não havia denominações, mas meras distinções culturais para aqueles que viviam em regiões próximas.

A segunda a se apresentar deveria ser a Professora Miriam Coser, mas a mesma não pôde comparecer. Entretanto, o Professor Marcos Caldas leu sua pesquisa, que tem como tema o campo da biografia e estudos de gênero na Idade Média.

A terceira Professora a se apresentar foi Rivia Fonseca. Convidada pelos professores a integrar o Pluralitas, a professora da área de letras ministra a disciplina de línguas latinas da universidade e, com sua entrada no grupo de pesquisa, retomou estudos sobre a antiguidade. A linguista e especialista em latim clássico tem como projeto o uso de noções metodológicas da área de letras aplicadas aos estudos textuais da história, como, por exemplo, a análise de discurso, que propiciaria uma melhor compreensão de fontes de materiais historiográficos.

A quarta foi a Professora Renata Rozental Sancovsky. Ela chamou para compor a mesa o discente Vanir Júnior (ex-bolsista PIBIC/CNPq e atual FAPERJ). Representando os alunos que pesquisam em um espírito pluralitano e que também são orientados pela Professora Renata, Vanir apresentou os resumos das pesquisas dos outros pesquisadores discentes.

O primeiro projeto apresentado por Vanir foi o do aluno Caio César (6ºperíodo e monitor de História Antiga e Medieval), que fala acerca do “Corpus Mysticum e a construção do imaginário medieval de sociedade por Santa Catarina de Siena”. Para isso, Caio utiliza os Diálogos de Catarina e propõe o entendimento de aspectos particulares do imaginário social do ocidente medieval como parte da idealização de um Corpus Mysticum de Cristo.

O segundo projeto foi o da aluna Tatiane Souza (FAPERJ), intitulado como “Relações sociorreligiosas na Idade Média Hispânica, tendo como fonte as epístolas de Rabi Moshe Ben Maimon (1135-1204)”. Tatiane, além de evidenciar o “mito da convivência pacífica” entre muçulmanos e judeus no período medieval, busca estudar as produções historiográficas vigentes sobre as relações sociorreligiosas na formação do mundo ibérico - especificamente Espanha Muçulmana em contexto de Reconquista Cristã – tendo como objetivo destacar – com base no discurso de Maimônides – as possibilidades do judeu prosseguir em sua fé, mesmo sofrendo conversão forçada, política esta vigente no período de dominação Almôada/Almorávida.

O terceiro projeto foi o do aluno Samuel Felício (PIBIC/CNPq), intitulado como “Assassinato ritual e hóstia profanada: imagem e literatura clericais na construção de mitos antijudaicos juntos à Cristandade Européia – Séculos XI a XIII”, no qual o aluno tem como objetivo levantar e analisar os pensamentos e práticas que possibilitaram a construção de mitos antijudaicos no Ocidente Medieval, o que possibilitou a formação de uma representação degradante dos judeus e promoveu o antijudaismo popular.

O quarto projeto apresentado foi o do próprio Vanir Júnior (ex-PIBIC/CNPq e atual FAPERJ), intitulado como “Romanização e Cristianização da Hispania: Identidade, História e Literatura Eclesiástica – Séculos V-VII”. Trabalhando com as Histórias de Isidoro de Sevilha, Vanir tem como objetivo analisar a formação de um projeto eclesiástico no qual os escritos do bispo hispalense (retomando uma tradição literária típica de nomes como Paulo Orósio) aparecem como fundamentadores e contribuintes diretos num processo formativo de um discurso mitológico de unidade hispano-visigoda. Além disso, evidenciam a participação clerical na formação deste imaginário de poder, bem como seus objetivos no que diz respeito à conservação da fé cristã nicena em solo hispânico, através do estabelecimento de uma unidade régia.

A Professora Renata Rozental, ao discursar sobre seu projeto de pesquisa, falou que o mesmo é um estudo sobre processos discursivos referentes à polêmica judaico-cristã no período inicial da Idade Média, a partir daquilo que ela nomeou como literatura patrística polêmica, na qual é encontrada uma série de elementos anti-judaicos. Na mesma é possível identificar três discursos: o da homilética/moralizante, o narrativo/discursivo e o teatral. Sua pesquisa destaca a relação de alteridade entre judeus e cristãos no mundo tardorromano e medieval. A pesquisa se encontra em contínuo desenvolvimento.

O último a apresentar foi o Professor Luís Eduardo Lobianco. Logo no início de sua fala relatou sobre as aprovações da I Jornada do Pluralitas pelo colegiado do DHRI (Departamento de História e Relações Internacionais) e no CONSUNI/ICHS da UFRRJ, o que, nas palavras do Professor, foram grandes vitórias para o grupo. Antes de falar sobre seu trabalho, apresentou as quatro linhas de pesquisa existentes no grupo: a primeira é sobre Arte, formas de expressão e história intelectual; a segunda é poder, interações e conflitos culturais; a terceira, história social e das ideias; a quarta é economia política da religião.

A pesquisa do Professor Lobianco segue a segunda linha mencionada e é intitulada Religião, Poder e sociedade no Egito Ptolomaico e Romano. O seu objetivo é identificar as práticas religiosas do Egito Helenístico e Romano, em específico o politeísmo e o hibridismo envolvendo egípcios, gregos e romanos. O Professor Lobianco também citou outros trabalhos dos seus orientandos. Serão citados aqui alguns: “Paulo e a mulher cristã no Oriente Helenístico”, de Aparecida Conceição Azevedo; “Cultos domésticos no Antigo Egito”, de Bárbara Carina L. da Silva e o “Poder Feminino no Reino Novo. Hatshepsut e Nefertiti” de Elizabete Cristina Da Silva Chaves.


Em seguida, o Professor chamou à mesa um de seus orientados, o aluno Thiago Ribeiro. O seu tema de monografia, “Morte e Magia no Reino Novo e na época Tardia”, tem como objeto de estudo a morte e a magia no Antigo Egito, com base em questões ligadas sobretudo à cosmologia, ao monismo e ao dualismo, a partir da análise de fontes iconográficas funerárias, em especial cenas de Psicostasias, mas também textuais - Livro dos Mortos. 

Confira algumas imagens do evento:






































domingo, 22 de abril de 2012



Por Rafael Oliveira

Yvon Thébert nasceu em Paris em 1943. Ensinou História Antiga na ENS de Fontenay-Saint Cloud. Dirigiu escavações em Bulla Regia, na Tunísia e no Palatino, em Roma. Colaborou nos volumes Les reuines de Bulla Regia (Roma, 1977) e no vol. I, organizado por Paul Veyne, de Histoire de La Vie Privée, dirigida por Ph. Ariès e G. Duby. Faleceu em 2 de fevereiro de 2002. Analisamos nesse trabalho, o capítulo intitulado “O Escravo” escrito por ele no livro “O Homem Romano”, organizado por Andrea Giardina.
            Nessa obra, o autor começa expressando a opinião generalizada de que nossa sociedade herdou, dos gregos e romanos, nossas características mais específicas, e que utilizamos de seus temas filosóficos e literários até hoje em dia. Familiaridade essa que é contrariada ao pensarmos que essas sociedades na quais nos espelhamos possuíam um profundo sinal de barbárie, a escravidão. Yvon Thébert então pergunta “Como é possível inventar a filosofia, a política, construir monumentos que encarnam perfeitamente esses novos valores e, ao mesmo tempo, obrigar as pessoas a combater nos anfiteatros ou reduzir à escravidão uma parte da humanidade?”¹  .
Segundo o autor, o escravo é definido por antíteses, permanecendo sempre como o negativo do cidadão. Ele cita Aristóteles, quando o mesmo diz em seu livro Política que o homem é acima de tudo um animal político, e o escravo é desprovido da faculdade de deliberar. O cidadão teria tempo livre, podendo se dedicar às atividades criativas, incluindo a política; já o escravo é desprovido desse tempo vago, utilizando o tempo que não está trabalhando apenas para comer e dormir, a fim de recobrar suas forças para o dia seguinte. Thébert diz que a mesma ideia era aplicada ao direito romano, onde o escravo era visto como um patrimônio, podendo ser vendido e incluído na lista de bens.
Na Antiguidade, a divergência entre homens livres e escravos se afirmava cada vez mais como a divisão fundamental da humanidade, à medida que o sistema da cidade deixa de ser o quadro essencial da vida dos homens. Seguindo a noção de cidadão e não-cidadão que Aristóteles expõe em sua Política, o escravo seria considerado da segunda categoria, uma vez que para o autor, cidadão é aquele homem que tem participação no poder da cidade.
Com o Império Romano, a cidadania deixa de ser de uma determinada cidade, e passa a ser de todo o Estado, alargando cada vez mais os limites geográficos e abrangendo mais pessoas, até o momento em que o Édito de Caracala (212 d.C.) determina que todos os homens livres são cidadãos. Com isso o escravo fica cada vez mais isolado do resto da população.
Yvon Thébert nos apresenta o que para ele, é uma contradição fundamental para se entender o escravo na Antiguidade: “como é possível exaltar a liberdade do cidadão e, ao mesmo tempo defender, o princípio da escravatura?²” 
            O primeiro dado essencial, para o autor, é a grande heterogeneidade que caracteriza o mundo dos escravos. Esses são privados de sua personalidade e são transformados em objetos, submetidos à autoridade do seu senhor, podendo ser vendidos ou comprados de acordo com a necessidade ou a vontade de seu senhor. Ulpiano, jurista do século III equiparava as fugas de escravos a perdas de gado.
            A heterogeneidade dos escravos é definida juridicamente, mas por várias vezes é contrariada pela realidade e pelo modo que os escravos eram utilizados. Thébert nos mostra então a contradição entre os escravos do campo e os urbanos: a maioria dos escravos que trabalhavam no campo estavam encarregados apenas das tarefas produtivas. Tinham pouco contato com o seu senhor, e por isso estavam sujeitos a uma severa disciplina tentando explorar ao máximo suas capacidades de trabalho. Para Thébert, a esse grupo se aplica melhor o estigma de homens desprovidos de tempo livre.
            Portanto, podemos dizer que os escravos do campo dedicavam suas forças exclusivamente à produção. Na cidade, a organização é completamente diferente das villas. Há numerosos escravos que escapam do controle direto e permanente, uma vez que estão encarregados de gerir negócios do senhor, tendo assim certa autonomia que os escravos do campo não gozam. Além disso, os escravos que habitam a casa do senhor possuem funções específicas. Os escravos estão nessas casas apenas para facilitar a vida dos senhores e, portanto a disposição de seus caprichos, o que de certo modo garante condições de trabalho menos duras a esses escravos. Apuleio, em seu romance O Asno de Ouro nos permite observar que assim como os móveis e utensílios, os escravos faziam parte da decoração da casa, tendo as famílias afortunadas, uma quantidade maior de servos. Embora em alguns casos haja um clima familiar entre os senhores e os escravos da casa, “os membros da classe dirigente nunca se esquecem do seu devido lugar e do lugar dos escravos.³”  
            Porém a heterogeneidade dos escravos não possui apenas esses dois tipos (urbanos e rurais), mas sim uma hierarquia, que como dizem Paulo e Ulpiano, deviam ser alimentados e vestidos de maneira diferentes de acordo com sua categoria. Ou seja, “os escravos não constituíam uma classe social: o seu estatuto exprime mais uma visão jurídica e ideológica da sociedade do que as suas realidades socioeconômicas4”.  O que não significa que sua condição não tivesse uma conotação social.
Para Thébert, as modificações da organização social e econômica que ocorreram na Antiguidade, emergem de uma perspectiva centrada na escravidão. Nas cidades, coexistiam vários grupos, cujos lugares eram determinados em função dos cidadãos. É o que acontece com os escravos, que mesmo podendo ser propriedades coletivas das comunidades, estavam nas mãos dos cidadãos e constituíam uma das bases essenciais do sistema. Com suas atividades, aumentavam o lucro dos cidadãos, e ainda permitem que os cidadãos se libertassem momentaneamente de suas funções e usufruíssem de tempos livres, que eram usados inclusive para a prática da política. A partir do século II, o escravo passa a ter um papel totalmente novo na organização das cidades. Ele “deixa de estar ao serviço de famílias de proprietários e passa a estar integrado em unidades de produção5”  . Essa mudança não altera apenas a função do escravo, mas também permite um aumento considerável na quantidade dos mesmos.
Essa revolução social deu origem a dois tipos de propriedades rurais: as villae e os latifundium. O setor dominante é o sistema de villa, que proporciona grandes lucros devido à produtividade do trabalho e à comercialização dos produtos. O latifundium, com menos investimentos, tem um papel secundário, mas importante, uma vez que facilita o funcionamento das villae fornecendo-lhe escravos e cereais.
            Sendo assim, o escravo se encontra, mais uma vez, no centro de uma profunda mudança econômica. Nas manufaturas, a nova organização do trabalho converte-o numa simples engrenagem de um processo produtivo, eliminando assim toda sua iniciativa, mas garantindo sua eficiência e produtividade. Thébert então resume dizendo que, 

“Na época que nos interessa, a história da escravatura caracteriza-se portanto por duas grandes roturas. Em primeiro lugar, a que se verificou cerca de 200 a.C., que assinala a consolidação de um sistema econômico baseado numa utilização racional do escravo, visando extrair todos os lucros econômicos da sua condição de total dependência. Depois, a do século II d.C., que corresponde à ruína do sistema. Além disso, no interior destes quatro séculos, é preciso distinguir os últimos dois séculos da República dos dois primeiros séculos do Império, períodos que correspondem respectivamente ao auge dessa organização e ao seus longo e progressivo declínio. Essas grandes divisões cronológicas condicionam profundamente a vida do escravo romano.”
THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 128

 Antes das mudanças ocorridas na época helenística, o escravo, está inserido em relações que unem os vários membros da família sob a autoridade do pater familias. Não seria exagero dizer que em algumas situações o escravo gozava de direitos parecidos com os dos filhos de seu senhor. Thébert diz que as XII Tábuas, texto fundamental do direito romano redigido no século V a.C., declara que o pai pode vender o filho, e também pode adotar um escravo. Porém não devemos nos iludir, uma vez que existe uma diferença essencial entre o filho e o escravo, estando o primeiro destinado a se tornar um cidadão e pai de família. Entretanto, quando a escravatura patriarcal é substituída por um verdadeiro sistema escravagista, a situação do escravo muda. O escravo perde totalmente sua personalidade, e qualquer dano que venha lhe ser causado por um terceiro, será considerado um prejuízo material ao seu dono.
O autor então cita o caso de um escravo assassinado que Cícero conta em seu Pro Quintus Roscius para ilustrar esse momento.

“[...]Cícero teve de servir de advogado a Quinto Róscio, um comediante que tinha dado aulas de arte teatral ao escravo de um tal Fânio. Nessa associação, um tinha fornecido o servus, o outro tinha-o instruído e ambos dividiam entre si os lucros[...]. Um dia, porém, o escravo foi morto. Junto ou independentemente, segundo as circunstâncias, os dois sócios processaram o assassino em nome da Lex Aquilia. Por fim, Róscio aceitou um acordo, obtendo um terreno em troca da indenização fixada. Seguiu-se, entre os dois ex-sócios, um longo processo em que se insere a alegação de Cícero. O que nos interessa aqui é o espírito desse texto. Só se fala do dinheiro e do interesse dos proprietários. O escravo assassinado nunca aparece como tal: ignoramos tudo acerca da sua personalidade[...]. O que ocorreu não foi a morte de um homem, mas um prejuízo patrimonial.”
THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 129

            Esse é o mundo do escravo-mercadoria, onde tudo pertence ao senhor. O escravo não possui nada seu, e é apenas, a propriedade de alguém. Esta nova forma de escravatura é rapidamente registrada pelo direito romano. O escravo-mercadoria agora está completamente isolado do resto da humanidade, transformou-se em uma coisa ou animal, e é tratado como tal pelo direito.
            É importante citar que os escravos não ficaram passivos a situação. Grandes guerras de escravos foram traçadas durante muitos anos. Ao ser separado da família, onde quase não se notava a sua condição de escravo, e começar a estar frequentemente longe de seu senhor, realizando trabalhos que fogem a sua organização, a ausência de liberdade se torna muito mais pesada. Por isso, não é difícil entender a violência das revoltas desses indivíduos que pouco tinham a perder.
            Mário, depois de ter assumido o comando de guerra da África, recrutou voluntários para a campanha de 107 a.C., abrindo então a legião aos cidadãos mais pobres. O exército tornava-se assim um meio de promoção social. Os imperatores de finais da República desempenharam assim um papel importante na estabilização social, reinserindo grupos marginalizados, o que abrangeu também os escravos, que passaram a ser recrutados para guerra, e que podiam ser libertados em caso de êxito.
            O dado fundamental para essa evolução que ocorria no Alto Império é de ordem econômica. A partir da primeira metade do século I, a organização escravagista começou a estagnar e a decair, levando ao fim de uma economia baseada na escravatura.
            As condições de trabalho dos escravos transformam-se rapidamente. A especificidade do escravo tende a desaparecer progressivamente. Nos campos, alguns senhores entregavam à escravos a gestão das suas terras, o que implicava em certa autonomia e responsabilidade. Ulpiano, em seu Digesto, diz que escravos estão no campo na função de colonos. Ocorre assim o reagrupamento em uma mesma classe de escravos e homens livres.
            Acaba assim ocorrendo uma multiplicação de escravos desempenhando papeis importantes em gestão de propriedades, assumindo responsabilidades do seu senhor.

“Para gerir as suas empresas, o patrão recorre a institutores, quase sempre escravos que gerem uma oficina e tratam das vendas e das compras das mercadorias, de operações de empréstimos, de transporte, etc.[...] A eficiência do escravo como agente está diretamente ligada à sua condição jurídica. O patrão pode submetê-lo a todo tipo de inquérito, inclusive sobre tortura, e fazer justiça por suas próprias mãos. Estas garantias, que um homem livre não dá, explicam porque é que os ricos recorrem cada vez mais a escravos para administrarem os seus bens e porque é que isso se converte em regra absoluta quando a função implica manuseamento de dinheiro.”
THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 133

É curioso notar que homens livres se vendiam a um proprietário para poderem administrar seus bens. Nessa situação, tornar-se escravo passa a ser um meio de promoção social.
            O reconhecimento de uma certa capacidade do escravo para os negócios parece portanto indispensável, quer no interesse daqueles que negociam com ele, quer no interesse do patrão, que conta precisamente com a autonomia do escravo para gerir com eficiência a empresa. “A solução que permitiu conciliar esta evolução com a inferioridade fundamental do escravo baseou-se no desenvolvimento de um costume antigo, o do pecúlio do escravo6”.  Graças ao pecúlio, esses escravos passam a poder possuir escravos, alguns dos quais poderão desempenhar função de institutores para gerir os seus bens.
            Com isso, as classes dirigentes viram a necessidade de se exercer uma pressão moral sobre seus subordinados cada vez menos controlada por uma disciplina rígida. Até porque, submeter novamente o mundo escravo ao seu controle, não exigia cárceres ou prisões, além de que esse modelo de exploração não correspondia mais a economia. Séneca diz que, “são os nossos maus tratos que transformam os escravos em inimigos. É preciso inspirar-lhes não o temor mas o respeito que cria o afeto: é preciso recriar os laços que outrora uniam o escravo à casa.7”
            A teoria que diz que o sentimentalismo entre escravo e senhor obtinha melhores resultados que os maus tratos físicos teve algum sucesso, embora os senhores ainda utilizassem os castigos corporais, como o próprio Séneca, autor da teoria.
É curioso entender porque a bondade do senhor ficava apenas nos discursos, não havendo uma mudança de comportamento por parte deles. Isso se deve, talvez, ao modo como passa a ser concebido o papel do Estado nas relações entre senhores e escravos. 
“No passado, o Estado só se manifestava para reprimir as grandes revoltas. Agora celebra-se a sua ação no próprio seio da família, onde a harmonia é restabelecida em nome da salvação pública.[...] De fato, todo Alto Império é caracterizado por uma intervenção crescente do imperador nas relações entre senhores e escravos.”
THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 137
           
            A legislação imperial comportava dois aspectos inseparáveis em relação ao escravo. O primeiro consistia na proteção contra a violência do senhor, através de criação de limites de tortura, proibição de matar escravos que não pudessem mais trabalhar, etc. O segundo aspecto consistia em garantir a segurança do domini. Com o Senatusconsultum Silanianum, o Estado passa a ter o papel repressivo que antes pertencia aos senhores. Assim, a domus transformou-se novamente em uma “pequena república”, onde os habitantes viviam harmoniosamente.
            Depois de delinear as mudanças que atingem a relação entre escravos e senhores, Thébert volta a se perguntar “como é possível conceber uma sociedade onde coexistem o cidadão e o escravo?” 8 
            Fica evidente que a resposta muda de acordo com a situação e o período histórico. Numa primeira fase, o principal conceito justificativo é a ideia de natureza. A pessoa só é escrava, se possuir uma natureza escrava. Platão em seu A República diz que a natureza não criou homens semelhantes, mas sim, homens diferentes uns dos outros, e próprios para uma função definida. Ou seja, as diferenças naturais determinavam se uma pessoa seria escravo ou senhor. Aristóteles propunha dois critérios para distinguir entre esses dois grupos: “O primeiro é de ordem política: o homem é, por natureza, um animal político, um ser cívico; por conseguinte, só o homem livre é totalmente homem porque só ele está apto para a vida política. O senhor coincide com o cidadão. Pelo contrário, o escravo é, por natureza, incapaz de deliberar; participa da razão sem a possuir. O segundo critério articula-se estreitamente com o primeiro. Certos trabalhos, que implicam apenas o uso da força, são por essência servis e são esses os que se adequam aos indivíduos que foram definidos como escravos pela sua incapacidade de raciocinar.”9 
            Para Aristóteles, o bárbaro não pertencia ao mundo e, portanto seria um desclassificado. Foi a partir destas bases que a ideologia escravagista romana evoluiu. Com as guerras, a natureza escrava e a de estrangeiros coincidiam. Com isso, Roma passa a ser vista como única cidade verdadeira, e em todas as cidades a sua volta, poderia buscar escravos. Somente a cidadania romana garantia sua liberdade.
            Os critérios aristotélicos de identificação do escravo evoluíam. O corpo do escravo passa a ser visto em normas de produção, pouco importando se ele tinha alguma deficiência, desde que não impedisse seu trabalho e eficácia
            A minoria escrava privilegiada pelos cargos que ocupavam, podiam viver pouco distintas dos homens livres. Thébert, inclusive, diz que esses escravos estavam na melhor posição para reduzir as diferenças entre eles e os homens livres.
Enfim, o autor tenta nos transmitir a ideia de que a sociedade se dividia entre homens livres e não-livres, entre cidadão e escravos, sendo o escravo uma das bases para todas as mudanças na organização social e na economia que viesse a acontecer. Através de vários exemplos, ele mostra como a situação do escravo mudou em períodos diferentes da história romana, onde no início ele convivia com a família e possuía um certo apelo afetivo com os mesmos, em seguida se torna apenas uma mercadoria comparada aos mobiliários e aos animais domésticos, e mais na frente evolui de tal modo que sua posição chega a se confundir com os homens livres. Outras ideias discutidas pelo autor são: a importância do critério de cidadania, que vai aos poucos, se enfraquecendo; a importância do Estado na relação entre senhores e escravos; a diferença entre escravos urbanos e os do campo, entre outros. Thébert analisa e cita fontes primárias, como algumas leis do direito romano, e fontes textuais para expor, de forma bastante objetiva, as mudanças sociais pelas quais o escravo passou, citando e dialogando com vários autores, porém se inserindo raramente no texto. O autor conclui seu trabalho de forma amarrada, com clareza. Em suma, concluímos que o papel do escravo em Roma sempre serviu como uma das bases da sociedade. Não seria exagero afirmar, que em algumas épocas, a sociedade se organizou de acordo com o momento escravista presente.
Enfim, o papel dos escravos mudou bastante durante os séculos II a.C. e II d.C., mas mesmo estando “em alta” em alguns momentos, chegando a receber responsabilidades e alguma autonomia, seu papel de escravo nunca foi esquecido, estando sempre passivo de castigo e vigilância, fosse de seu senhor, fosse do Estado.

 *Capítulo do livro “O Homem Romano” organizado por Andrea Giardina.

NOTAS
[1] THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 119.
2 THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 121.
3 THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 123
4 THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 124

5 THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 125
6 THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p.p 133-134
7 THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 136
8 THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 138
9 THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p. 139



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
THÉBERT, Yvon (1992). “O Escravo” in Andrea Giardina (org.) “O Homem Romano”. Lisboa, Editorial Presença, p.p 117-145

IMAGENS

YVON THÉBERT: http://www.cairn.info/loadimg.php?FILE=AFHI/AFHI_003/AFHI_003_0015/fullAFHI_id2864324415_pu2005-01s_sa02_art02_img001.jpg 

ESCRAVOS: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjKTpArjhuHfCcPlcpx24FfI3R9INgFfQEyuqADFqjtBvLXkeOTE51yrJTSWCFdoJNDzEbssVZLPkefqBi7396GXNGvpXlOhJQ7vDiQKWHHG-jSk9QmRxPvWfJKtQ4ld3THgUObpr9w20o/s400/Ben-Hur

sexta-feira, 27 de maio de 2011


Por Rafael Oliveira

Amenhotep IV (ou Amenófis IV, em uma versão helenizada), nasceu em Tebas, por volta do ano 1362 a.C. Seu reinado, como diz Gisela Chapot, "foi marcado por uma série de mudanças promovidas internamente, as quais constituíram um dos eventos mais polêmicos da história faraônica. Fosse no âmbito político, artístico, cultural ou religioso, quase todos os aspectos da sociedade egípcia passaram por abalos significativos no episódio que ficou conhecido como Reforma de Amarna".

O culto ao deus Amon se tornou o principial dentre todos os outros deuses, durante a XVIII dinastia. O Egito já havia iniciado um período imperialista, com a conquista de vários povos, e o crescimento do culto e poder do deus Amon e do clero tebano foram proporcionais ao crescimento imperial egípcio. O poder exercido pelo clero chegou a tal ponto, que eles conseguiam interferir na sucessão faraônica.

"Quando Tutmés II deixou o trono egípcio, o seu sucessor direto foi impedido de assumir a dupla coroa: os sacerdotes de Amon arquitetaram e justificaram a subida de Hatshepsut como a nova "Faraona" do Egito. Criou-se toda uma cosmologia para legitimar a sua ascensão; o próprio Amon teria participado da concepção divina da rainha. Essa participação dos sacerdotes pode demonstrar como tão grande era o poder e o prestígio do clero de Amon que, para alguns, chegava a ameaçar a posição do rei."

(Elvis Sampaio)

Mais de um século depois, com a morte de seu pai, Amenhotep III , e de seu irmão mais velho Tutmés, Amenhotep IV acabou por ser o único herdeiro do reino egípcio. Segundo Elvis Sampaio, "durante os primeiros anos de seu reinado, Amenófis IV dá continuidade ao trabalho desenvolvido pelo seu pai. Entretanto, no quarto ano de seu governo, o novo Faraó resolve tomar uma série de medidas que viriam a mudar o curso da história do antigo Egito." Cansado da influência exercida pelos sacerdotes do deus Amon, Amenhotep IV, começou a formular a sua reforma religiosa. Em seu quarto ano de governo, durante um festival heb-sed (ritual cujo objetivo era o de renovar a força do Faraó), Amenófis IV implementou mudanças que caracterizavam essa nova visão religiosa.

"O festival que deveria ser presidido por diversas divindades teve apenas uma como homenageada: o deus Aton, por meio da representação de Rá-harakhty; o deus Amon foi suprimido da celebração.[...] A partir desse momento, a figura do deus Aton foi elevada a deus dinástico do governo; a legitimidade do Faraó não se baseia mais na mitologia de Amon; foi criado um novo conceito com base na religião "atoniana"."

(Elvis Sampaio)

Foi também, durante esse festival, que o Faraó mudou seu nome. Ao invés de Amenhotep, nome que significa "Amon está satisfeito",ele passa a se chamar Akhenaton, que significa "o espírito atuante de Aton". Akhenaton ordenou o fechamento dos templos de culto para todos os deuses, e legitimou o deus Aton, o disco solar irradiante, símbolo da vida, do amor, da verdade, como único deus existente no Egito. Ele deixou Tebas, construiu uma nova capital a 300 kms ao norte da antiga, perto da cidade atual de Tell-Amarna, e denominou-a Akhetaton (Horizonte de Aton), onde foi construído o principal templo de culto ao deus Aton.

Ao contrário do que grande parte da historiografia diz, é incorreto falarmos de um monoteísmo no Egito,mas sim uma monolatria, uma vez que mesmo com a proibição de culto, e com a denominação de Aton como deus uno, a população egípcia não deixou de cultuar os "antigos deuses". A verdade é que o deus do disco solar nunca foi muito aceito fora de Amarna, e cultos aos deuses "extintos" era realizados clandestinamente com certa frequência. Uma prova disso, é que após a morte de Akhenaton (aproximadamente em 1336 a.C.), os templos de culto ao deus Aton foram destruídos, e a cidade de Amarna foi aos poucos sendo abandonada. O nome Akhenaton foi amaldiçoado, os egípcios tentaram apagar todos os registros de sua existência, e os sacerdotes de Amon voltaram a ganhar força, assim como todos os outros deuses. Tutancâmon, seu filho, tentou manter o deus Aton como único, mas acabou tendo que ceder à pressão, e retomar o politeísmo egípcio.
Referências Bibliográficas:
CHAPOT, Gisela. Akhenaton e a construção de uma cosmologia positiva durante a Reforma de Amarna (1353 – 1335 a.C.). In: http://www.ufrrj.br/graduacao/prodocencia/publicacoes/praticas-discursivas/artigos/akhenaton.pdf , consultado em 26/05/2011, às 21:13h.

SAMPAIO, ER. As divergências historiográficas sobre a reforma religiosa de Akhenaton. In: http://www.upis.br/revistamultipla/multipla25.pdf#page=9 , consultado em 27/05/2011, às 09:25h.

D`ISON, Claudine Le Tourneur. Aton, o primeiro deus único do Egito. In: http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/aton_o_primeiro_deus_unico_do_egito_2.html , consultado em 27/05/2011, às 10:42h.

SILIOTTI, Alberto. Egito, Grandes Civilizações do Passado. Editora: Folio. 2006