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terça-feira, 21 de janeiro de 2020


6ª edição, lançada pela Editora Paz e Terra - 1996
Por Vanir Junior

No texto A Revolução Francesa, excerto de A Era das Revoluções (1962), Eric Hobsbawm traz o conceito de “dupla revolução”, entendendo que, por trás da consolidação do capitalismo liberal, bem como do mundo contemporâneo, no século XIX, existiram duas importantíssimas transformações: a revolução industrial sendo esta o “braço econômico”, e a revolução francesa sendo o “braço político”, atuando ambas em um processo de complementaridade  para o estabelecimento de tal modelo. 
Enquanto a Revolução Industrial seria responsável pelas mudanças das estruturas econômicas e tecnológicas (como fábricas e ferrovias), que representam o início do processo de consolidação do capitalismo, a Revolução Francesa seria a responsável por espalhar as ideias de democracia, nacionalismo e liberalismo, ou seja, a ideologia de base iluminista, tendo, portanto, a responsabilidade pela completude de tal processo de consolidação, ao derrubar o ideário do Antigo Regime. 
Mas, por que exatamente a Revolução Francesa é indicada pelo autor como fundadora política da modernidade capitalista e não outros movimentos que também ocorreram no final do século XVIII? Pelo seguinte: segundo o autor, a Revolução Francesa foi o mais fundamental movimento pelo fato de ter ocorrido no Estado mais populoso e poderoso da Europa, além de também ter sido um incomparável movimento de massa e mais radical que qualquer outro, e, por possuir caráter ecumênico, buscou revolucionar o mundo, gerando enorme influência em vários outros processos revolucionários posteriores.  
Já no início do texto, o autor aponta que as origens do movimento devem ser procuradas na situação específica da França, que apresentava um agudo conflito entre a estrutura oficial do Antigo Regime e as forças ascendentes. Lá, as reformas despótico-esclarecidas fracassaram mais rapidamente por conta, principalmente, de uma fortíssima reação feudal, com uma nobreza que, para manter seus privilégios em meio à crise, exasperou o máximo possível as denominadas classes médias (noblesse de robe e burguesia – tanto a alta, quanto a baixa) e o campesinato, buscando afirmar ainda mais seus direitos feudais, o que forneceu a centelha para explodir o barril de pólvora da revolução, uma vez que tal situação promoveu um surpreendente consenso de grupo na burguesia. 
Contudo, essa burguesia, baseando-se em um ideário no qual “povo” era identificado com “nação”, trouxe algo mais revolucionário do que seu programa liberal pretendia, pois isso acabou indo de encontro com os interesses e anseios de mudança da população, ou seja, de toda a maioria do terceiro estamento. Isso levará, na década de 90 do século XVIII, a uma sucessão de governos com projetos políticos diferentes, numa verdadeira briga de tendências moderada/reacionária e radical (girondinos e jacobinos) e, apesar do projeto girondino ter sido o vencedor de tal briga política, com a formação do Império Napoleônico, o mito jacobino foi o que permaneceu e inspirou novas revoluções de cunho popular na posteridade.  
Assim, para Hobsbawm, a Revolução Francesa seria a fundadora política do mundo contemporâneo capitalista ou do que se compreende como modernidade, uma vez que forneceu tanto a sua ideologia de sustentação, mas, também, sua contradição, que é o mito jacobino, ou seja, o cerne popular evidente em diversas revoluções dos séculos XIX e XX.


Referências Bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J.. A Revolução Francesa. 6ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.


sexta-feira, 25 de setembro de 2015


PROGRAMAÇÃO

3ª feira - 06/10/2015:

10h às 12h – Auditório Paulo Freire (ICHS)
Inscrições e Cadastramento

12h às 13:30h – Almoço 

14h às 16h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Conferência Inaugural da Área de Idade Média 
Profa.Dra.Vânia Leite Fróes (UFF - PPGH)

16:30h às 18:30h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Mini-Curso De duritia cordis iudaici (“Sobre a dureza do coração judaico”): o amadurecimento do ódio na práxis antissemita episcopal visigoda. Século VII.
Professora Doutoranda Cristiane Vargas Guimarães (PPHR – UFRRJ – Pluralitas – Bolsista CAPES DS) 

18:30hs às 19h
Coffee Break 

19h às 21h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Conferência Inaugural da Área de Antiguidade
Prof.Dr.André Leonardo Chevitarese (UFRJ – PPGHC)


4ª feira - 07/10/2015:

9:30h às 11:30h – Auditório Pavilhão de Aulas Teóricas (PAT) 
Mini-Curso Eremitismo e Anacoretismo no Monaquismo Copta. Século IV.
Prof. Esp. Mestrando Jorge Gabriel Rodrigues de Oliveira (PPHR – UFRRJ –Pluralitas – SEEDUC)

12h às 13:30h – Almoço 

14h às 16h – Auditório Pavilhão de Aulas Teóricas (PAT) 
Conferência da Área de Idade Média 
Prof.Dr.Sérgio Alberto Feldman (UFES – PPGHIS) 

16h às 16:30h 
Coffee Break

16:30h às 18:30h – Auditório Pavilhão de Aulas Teóricas (PAT) 
Conferência da Área de Antiguidade Tardia 
Prof.Dr.Gilvan Ventura da Silva (UFES – PPGHIS) 


5ª feira - 08/10/2015:

14h às 16h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Conferência da Área de Idade Média
Profa.Dra.Leila Rodrigues da Silva (UFRJ-PPGHC) 

16:30h às 18:30h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Mini-Curso As relações entre o historiador da Antiguidade e o aporte linguístico: o conhecimento das línguas antigas e a reconstrução histórica do Antigo Oriente Próximo 
Professora Dra Nely Feitoza Arrais (CEIA-UFF/La Salle Institutos Superiores RJ)

18:30h às 19h
Coffee Break 

19h às 21h – Auditório Paulo Freire (ICHS) 
Mesa Redonda da Área de Antiguidade
Prof.Dra. Nely Feitoza Arrais (CEIA-UFF/La Salle Institutos Superiores RJ)
Prof.Dra. Gisela Chapot (Seshat- Museu Nacional UFRJ)

COM CERTIFICADO

terça-feira, 22 de setembro de 2015

sábado, 22 de março de 2014

Por Tiago Oliveira Azevedo

Civitella in Val di Chiana
Em sua obra, Portelli começa expondo relatos de sobreviventes de um massacre em uma pequena cidadezinha da Itália em 29 de junho de 1944.Tudo indica que essa retaliação foi decorrente da morte de três soldados alemães por membros da Resistência (partisans), no pequeno vilarejo de Civitella Val diChiana, em 18 de junho de 1944.
Para a memória oficial da Resistência, a culpa do massacre é dos alemães, enquanto sobreviventes do massacre culpam a própria Resistência pelo triste episódio ocorrido naquela cidade. Esse acontecimento segundo Giovanni Contini gerou o que ele denota de “memória dividida”.
Testemunha do massacre, o padre Daniele Tiezzi, acha que essa mobilização da Resistência, o ataque que culminou na morte de três soldados alemães, foi um ato irresponsável e que pode ter contribuído (de forma direta ou indireta)para a retaliação nazista que culminou na matança. Em seu ângulo de vista, os membros da Resistência não eram muito organizados e nem politizados, assim para o padre, a ação dentro dos muros do povoado só teria piorado as coisas, pois toda população da pequena cidade foi envolvida no conflito sem que a Resistência pudesse defendê-la de uma iminente retaliação nazista. Mas Tiezzitambém enfatiza que quem puxou o gatilho foram os alemães e que os atos irresponsáveis dos membros da Resistência não poderiam isentar de culpa maior os militares nazistas envolvidos neste triste e histórico episódio.
Para Portelli essas duas memórias, da Resistência e da população de Civitella, entraram em choque pelo fato da população entender as celebrações da Resistência uma afronta às vítimas do massacre. Em 1994, em uma tentativa de reparar a memória da Resistência, foi criada a conferência internacional, In Memorian: por uma Memória Européia dos Crimes Nazistas, coordenada por acadêmicos com tendências esquerdistas. Segundo Portelli:

Essa reparação, porém, teve lugar num contexto histórico ambíguo, no qual a esquerda, incerta quanto a seus motivos e precavida quanto a qualquer tipo de ideologia, muito frequentemente adota, sem questionar, os motivos e as ideologias de terceiros, inclusive de seus antigos adversários. (p. 106.).
           
Portelli reforça que ao se tratar de memória dividida, a tarefa do historiador é ser crítico na análise dos fatos mantendo o respeito às pessoas envolvidas na situação. Em suas palavras ele explica: “Na verdade, estamos lidando com uma multiplicidade de memórias fragmentadas e internamente divididas, todas de uma forma ou de outra, ideologicamente e culturalmente mediadas.” (p. 106). Assim, a memória sofre alterações tanto pelos relatos dos membros da Resistência, quanto pelos depoimentos da população que de certa forma culpa os partisans pelo massacre. Ademais, a dramaticidade e emoção nos depoimentos prevaleceram sobre a análise e interpretação do ocorrido gerando assim contradições nos depoimentos.
Essas contradições são observadas por Clemente que explica que o modelo progressista de pensar da Resistência não levara em consideração fatores como o luto comunal da população, assim essa memória ignorava experiências que não seguem seus modelos institucionais. Para Portelli o pensamento religioso, sobretudo o pensamento católico, também não está isento de tal contradição. As narrativas das testemunhas estão apoiadas no sentimento comunal que de certa forma são mediados pela religiosidade e pela política. Contudo essas narrativas também merecem apuração crítica. 
Pierre Clemente chama a atenção para o fato no qual a memória coletiva acusa membros da Resistência de serem os causadores do massacre em Civitellaapoiados somente em questões políticas e do senso comum de pessoas que não se preocupavam em tomar partido contra o fascismo italiano. Ele também cita também que alguns órgãos oficiais do Vaticano já teriam culpado a Resistência, em uma outra ocasião, por um outro massacre nazista em que 335 civis também foram executados na cidade de Roma em retaliação a morte de 32 soldados alemães. Para ele é uma falha da historiografia da Resistência nunca ter levado em consideração tal senso comum, apoiado pelo fascismo,que manchou aimagemdos partisansna arena política atual.
Os depoimentos, tanto dos sobreviventes do massacre, quanto dos membros da Resistência, segundo o autor, também sofrem modificações com o decorrer do tempo. Nos relatos colhidos dos sobreviventes de Civitella, em um primeiro momento, esses não culpavam os membros da Resistência de forma aberta e direta. Contudo, meio século mais tarde, nota-se que esses relatos foram se modificando e observa-se também que o sentimento de culpa dos partisansno massacre foi tomando proporções cada vez maiores nesses relatos coletivos. Assim, fica explícito que o repúdio contra os alemães colhidos nos depoimentos das testemunhas em 1946, dão lugar, posteriormente, a narrativas carregadas de mágoas contra a Resistência nos depoimentos recolhidos dos sobreviventes em 1994 .
Segundo Portelli:
Vários são os fatores responsáveis por essas mudanças. As testemunhas talvez relutassem em criticar os membros da Resistência no período imediato no pós-guerra, quando estes gozavam de prestígios e de certo poder político; os abusos cometidos pelos membros da Resistência após a guerra, para “punir” pessoas respeitadas pela comunidade e que não haviam sido mais fascistas do que as demais, acentuaram a hostilidade do povo de Civitella; a onda de julgamento dos membros da Resistência, as controvérsias acerca da responsabilidade por Fossas Ardeatinas e a consolidação do senso comum já citado podem ter conferido ao ressentimento dos sobreviventes um aparato negativo e ideológico que à época do depoimento anterior ainda não tomara forma. (p. 110.).

Inocência

Os relatos dos sobreviventes de Civitellaquase sempre se convergem na antítese que figura a passagem da calmaria para caos. É notório nesses relatos que o ponto de partida para o caos foi justamente a morte dos soldados alemães e não o próprio massacre cometido por eles. Segundo os sobreviventes, até então todos viviam na calmaria do vilarejo que, mesmo próximo ao campo de batalha, proporcionava a população uma vida tranquila e sem infortúnios de guerra. Sobre os soldados alemães um sobrevivente relatou que: “[...] às vezes, chegavam a entrar nas casas para pedir uma bebida ou algo assim, mas nunca nos incomodavam”. (p. 112).Calamandrei e Cappelletto nesse mesmo parágrafo chamam essas representações de “paraíso perdido” e “era da inocência”.
Essas referências -- paraíso e inocência -- segundo Portelli são representações estranhas ao se tratar de um povoado sobre ocupação nazista e que é necessário relacioná-las com os fatos. Contudo, as memórias dos sobreviventes de Civitella são carregadas de recordações puras que são moldadas pela alegria da adolescência das testemunhas (muito jovens naqueles dias que antecederam o massacre) e muitas vezes essa pureza fixada na memóriadeles ainda é mantida no discurso oral,sem sofrer alterações quando narrada anos mais tarde pelas testemunhas. Enfim, esses relatos são imutáveise com o decorrer do tempo influenciam na ocultação das ações mais graves cometidas pelos soldados alemães naquele contexto de guerra.
Portelli observa queCivitella era uma cidade elitista, separada da zona rural por muros, assim não mantinha relações com camponeses. Sua população também não conhecia as articulações territoriais e as mobilizações de classes. Nota-se que já havia uma antipatia por parte dos moradores da pequena cidade contra os trabalhadores e camponeses (classe que integravam o corpo da Resistência) quando estes começaram a andar pela cidade em um contexto pré-guerra. Segundo o autor: “A raiva contra os membros da Resistência pela matança irresponsável dos alemães dentro dos muros do povoado também comporta o sentimento de invasão do espaço do povoado pelas classes inferiores do campo". (p. 114.). Portelli ainda ressalta que:

Existe, portanto, um duplo deslocamento, temporal e espacial. No espacial, os invasores são os membros da Resistência, ao invés dos alemães. No temporal, a história não tem início com a guerra, ou mesmo com a primeira vítima local dos alemães, mas só com a primeira reação com os membros da Resistência. (p. 114.).

Não que os sobreviventes neguem que as incursões e as lutas da Resistênciacontribuíram para o renascimento da Itália no pós-guerra, observasse que esse ressentimento é direcionado somente para a Resistência local, por todos esses fatores políticos e ideológicos apresentados pelo autor. É o que Portelli chama de “não no meu quintal” expressão muito usada pelo senso comum. Contudo, em um balanço geral dos fatos, não se pode negar que a Resistência tenha contribuído de forma ativa para a libertação da Itália e que culpa-los pelas atrocidades do massacre é simplismo quando não se leva em consideração os outros vários fatores que estão ocultados nas entrelinhas das representações e relatos dos sobreviventes de Civitella.

Mito e política

Fatores religiosos também são encontrados nos depoimentos dos sobreviventes de Civitella. Segundo o depoimento de uma sobrevivente do massacre, um padre da cidade teria se oferecido aos nazistas para morrer no lugar do povo em um ato de martírio cristão.
Relatos inerentes à memória coletivatambém narram que soldados alemãesteriam se negado aexecutar moradores do vilarejo naquela manhã de 20 de junho, dia da retaliação, e queteriam sido mortos por seus oficiais por desobedecerem à ordem. Ainda segundo relatos do Padre Enrico Biagini, ele teria perdoado anos depois,dois alemães, sendo um soldado da divisão militar alemã, que o procuraram e alegavam arrependimento de ter participado do massacre de 1944 no vilarejo. Em suas palavras o Padre Biagini relata: “Sou um dos alemães que aqui estiveram para retaliação naquele dia. Diga ao povo deste povoado, padre, que éramos muito jovens e que Hitler envenenou nossa juventude. Peço perdão para todos”. (p. 120.).
Portelli questiona o padre por não ter pedido aos visitantes alemães seus nomes e endereços ou a divisão militar a qual estavam submissos. O autor ainda levanta a questão de que esse ato do“perdão” pode ter origem no mito cristão que consiste em perdoar o inimigo. O que realmente surpreende Portelli é que esse perdão comunal ainda não teria sido consumado aos partisians. Em suas palavras sobre o não perdão comunal aos membros da Resistência Portelli explica: “[...] os alemães se arrependeram, os membros da resistência não. Dessa forma Civitella pode manter sua imagem de comunidade cristã, quanto seu ressentimento contra os membros da resistência” (p.122.).
As origens dos mitos também são questionáveis segundo o autor e sempre estãorelacionadas às tragédias que ceifam vidas inocentes. Mitos conhecidos por toda à Europa como o mito do “bom alemão” são apoiados em contos folclóricos que por muitas vezes são inspirados nos evangelhos apócrifos.  Nuto Revelli, historiador e líder a Resistência, exemplifica essas ambiguidades em torno dos significados dos mitos, selecionando o mito de um soldado nazista, bem simpático, que cavalgava pelos campos italianos distribuindo doces para as crianças. Essa imagem pode ser entendida também pela a lógica de mais um soldado nazista patrulhando os campos da região, seguindo às ordens bestiais e mal intencionadas de seuFührer. Assim, Nuto Revelli tenta explicar que os mitos podem ocultar significantes importantes para a compreensão dos fatos.
Em última análise às memórias divididas, comunal dos sobreviventes do massacre einstitucional da Resistência, devem ser compreendidas pelas subjetividades intrínsecas aos relatos dos indivíduos envolvidos no massacre, pois no caso de Civitella, o discurso de ambas as partes (partisianse moradores) são carregados por sentimentos de dor e de luto, mediados por ideologias, linguagem, senso comum e explicações institucionais. O conceito “memória dividida” é plural e deve ser estudado e reconstruído de forma crítica com o intuito de eliminar essas dicotomias que se estendem por gerações, possibilitando assim para o estudioso maior entendimento dessas múltiplas representações.

Referências Bibliográficas:

PORTELLI, Alessandro. O massacre de Civittela Val diChiana (Toscana, 29 de junho de 1944): mito e política, luto e senso comum. In: FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína (orgs.). Usos & abusos da história oral. 1a edição 1996. Rio de Janeiro: FGV, 2001, p. 103-130.

Site da imagem: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Civitella_in_Val_di_Chiana,_piazza_principale.jpg

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Por Gabriela M. Ribeiro e Laíne Mendes

Fotos: Nathalia Bastos


O dia 21 de novembro de 2013 trouxe uma novidade para o curso de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro: a inauguração de um novo grupo de estudo acadêmicos, o Pluralitas – Núcleo Interdisciplinar de Estudos Históricos. O mesmo reúne diversos pesquisadores das áreas de história antiga, medieval e teoria, mas também mantém dialogo com outros campos de conhecimento, como a área de letras e filosofia, por exemplo.


Neste sentido, o Pluralitas traz um diferencial ao propor um ambiente de estudos mais amplo, prezando pela interdisciplinaridade e, deste modo, buscando novos desafios e temáticas dentro do curso de história. O nome do grupo foi inspirado na frase “Principium Pluralitatis est Alteritas” (O princípio da pluralidade é a alteridade) de Boécio (480-525 d.C).

O evento ocorreu no auditório Paulo Freire, localizado na UFRRJ – Campus Seropédica, no Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Professores e alunos colaboradores (14 alunos no total), sob coordenação do discente Vanir Júnior, articularam toda a produção.

O grupo é constituído por professores extremamente competentes. Entre eles estão José da Costa D´Assunção Barros; Luis Eduardo Lobianco, Manuel Rolph, Marcos Caldas, Miriam Coser, Raquel Pereira, Renata Rozental e Rivia Fonseca. O Pluralitas também conta com alunos em sua composição, sendo, desta forma, um grupo acessível ao âmbito discente.

No decorrer do evento houve a apresentação do site www.pluralitas.webs.com. feita pelo Professor Marcos Caldas (IM-UFRRJ). Por meio do site há acessibilidade a fontes, arquivos, índice de bibliotecas, espaço para fórum de debates e envio de mensagens.

O Professor José D’Assunção Barros (IM-UFRRJ) apresentou o grupo NUPEH (Núcleo de Pesquisas Historiográficas), que é voltado ao estudo de teoria, metodologia e historiografias. O grupo de pesquisa está em expansão e tem como um de seus objetivos formar um dicionário com historiadores de todo o Brasil, estando também ligado ao Pluralitas. O NUPEH também é aberto ao âmbito discente. Ponto importante citado pelo professor – e que foi lembrado durante todo o evento – foi justamente a questão da autogestão e a valorização das iniciativas discentes. Esta é uma ideia que é alimentada/incentivada dentro do NUPEH, onde as iniciativas e decisões são feitas pelos próprios alunos. Esta atitude, defende Professor D’assunção, é uma forma de sair da lógica cada vez mais hierarquizada da universidade, “aonde o aluno não aprende a mesma de uma forma aberta, conjunta e de, alguma maneira, interdisciplinar”. O site do grupo é www.nupeh.webs.com.

Após apresentação acerca dos grupos de estudo e pesquisa, seguiu-se a vez dos professores falarem sobre suas pesquisas e trabalhos acadêmicos variados. O primeiro a palestrar foi o Professor Manuel Rolph, que falou a respeito de sua tese de doutorado. Seu tema é relacionado com o conceito de fronteira étnica romana. A fronteira étnica, nas palavras do Professor, se define como um espaço de interações, lutas, afirmações e rejeições, sendo um processo construído pela consciência de alteridade de um grupo, que, geralmente, é embasada em narrativas míticas de origem. É a partir deste processo de fronteira que Roma construiu sua identidade étnica, dando nova significação e ressiginificação ao mundo diversificado existente ao seu redor. É, por exemplo, Roma quem dá nome aos celtas, gregos, germânicos (como é possível ver nas narrativas de Cícero ou Tácito), já que antes não havia denominações, mas meras distinções culturais para aqueles que viviam em regiões próximas.

A segunda a se apresentar deveria ser a Professora Miriam Coser, mas a mesma não pôde comparecer. Entretanto, o Professor Marcos Caldas leu sua pesquisa, que tem como tema o campo da biografia e estudos de gênero na Idade Média.

A terceira Professora a se apresentar foi Rivia Fonseca. Convidada pelos professores a integrar o Pluralitas, a professora da área de letras ministra a disciplina de línguas latinas da universidade e, com sua entrada no grupo de pesquisa, retomou estudos sobre a antiguidade. A linguista e especialista em latim clássico tem como projeto o uso de noções metodológicas da área de letras aplicadas aos estudos textuais da história, como, por exemplo, a análise de discurso, que propiciaria uma melhor compreensão de fontes de materiais historiográficos.

A quarta foi a Professora Renata Rozental Sancovsky. Ela chamou para compor a mesa o discente Vanir Júnior (ex-bolsista PIBIC/CNPq e atual FAPERJ). Representando os alunos que pesquisam em um espírito pluralitano e que também são orientados pela Professora Renata, Vanir apresentou os resumos das pesquisas dos outros pesquisadores discentes.

O primeiro projeto apresentado por Vanir foi o do aluno Caio César (6ºperíodo e monitor de História Antiga e Medieval), que fala acerca do “Corpus Mysticum e a construção do imaginário medieval de sociedade por Santa Catarina de Siena”. Para isso, Caio utiliza os Diálogos de Catarina e propõe o entendimento de aspectos particulares do imaginário social do ocidente medieval como parte da idealização de um Corpus Mysticum de Cristo.

O segundo projeto foi o da aluna Tatiane Souza (FAPERJ), intitulado como “Relações sociorreligiosas na Idade Média Hispânica, tendo como fonte as epístolas de Rabi Moshe Ben Maimon (1135-1204)”. Tatiane, além de evidenciar o “mito da convivência pacífica” entre muçulmanos e judeus no período medieval, busca estudar as produções historiográficas vigentes sobre as relações sociorreligiosas na formação do mundo ibérico - especificamente Espanha Muçulmana em contexto de Reconquista Cristã – tendo como objetivo destacar – com base no discurso de Maimônides – as possibilidades do judeu prosseguir em sua fé, mesmo sofrendo conversão forçada, política esta vigente no período de dominação Almôada/Almorávida.

O terceiro projeto foi o do aluno Samuel Felício (PIBIC/CNPq), intitulado como “Assassinato ritual e hóstia profanada: imagem e literatura clericais na construção de mitos antijudaicos juntos à Cristandade Européia – Séculos XI a XIII”, no qual o aluno tem como objetivo levantar e analisar os pensamentos e práticas que possibilitaram a construção de mitos antijudaicos no Ocidente Medieval, o que possibilitou a formação de uma representação degradante dos judeus e promoveu o antijudaismo popular.

O quarto projeto apresentado foi o do próprio Vanir Júnior (ex-PIBIC/CNPq e atual FAPERJ), intitulado como “Romanização e Cristianização da Hispania: Identidade, História e Literatura Eclesiástica – Séculos V-VII”. Trabalhando com as Histórias de Isidoro de Sevilha, Vanir tem como objetivo analisar a formação de um projeto eclesiástico no qual os escritos do bispo hispalense (retomando uma tradição literária típica de nomes como Paulo Orósio) aparecem como fundamentadores e contribuintes diretos num processo formativo de um discurso mitológico de unidade hispano-visigoda. Além disso, evidenciam a participação clerical na formação deste imaginário de poder, bem como seus objetivos no que diz respeito à conservação da fé cristã nicena em solo hispânico, através do estabelecimento de uma unidade régia.

A Professora Renata Rozental, ao discursar sobre seu projeto de pesquisa, falou que o mesmo é um estudo sobre processos discursivos referentes à polêmica judaico-cristã no período inicial da Idade Média, a partir daquilo que ela nomeou como literatura patrística polêmica, na qual é encontrada uma série de elementos anti-judaicos. Na mesma é possível identificar três discursos: o da homilética/moralizante, o narrativo/discursivo e o teatral. Sua pesquisa destaca a relação de alteridade entre judeus e cristãos no mundo tardorromano e medieval. A pesquisa se encontra em contínuo desenvolvimento.

O último a apresentar foi o Professor Luís Eduardo Lobianco. Logo no início de sua fala relatou sobre as aprovações da I Jornada do Pluralitas pelo colegiado do DHRI (Departamento de História e Relações Internacionais) e no CONSUNI/ICHS da UFRRJ, o que, nas palavras do Professor, foram grandes vitórias para o grupo. Antes de falar sobre seu trabalho, apresentou as quatro linhas de pesquisa existentes no grupo: a primeira é sobre Arte, formas de expressão e história intelectual; a segunda é poder, interações e conflitos culturais; a terceira, história social e das ideias; a quarta é economia política da religião.

A pesquisa do Professor Lobianco segue a segunda linha mencionada e é intitulada Religião, Poder e sociedade no Egito Ptolomaico e Romano. O seu objetivo é identificar as práticas religiosas do Egito Helenístico e Romano, em específico o politeísmo e o hibridismo envolvendo egípcios, gregos e romanos. O Professor Lobianco também citou outros trabalhos dos seus orientandos. Serão citados aqui alguns: “Paulo e a mulher cristã no Oriente Helenístico”, de Aparecida Conceição Azevedo; “Cultos domésticos no Antigo Egito”, de Bárbara Carina L. da Silva e o “Poder Feminino no Reino Novo. Hatshepsut e Nefertiti” de Elizabete Cristina Da Silva Chaves.


Em seguida, o Professor chamou à mesa um de seus orientados, o aluno Thiago Ribeiro. O seu tema de monografia, “Morte e Magia no Reino Novo e na época Tardia”, tem como objeto de estudo a morte e a magia no Antigo Egito, com base em questões ligadas sobretudo à cosmologia, ao monismo e ao dualismo, a partir da análise de fontes iconográficas funerárias, em especial cenas de Psicostasias, mas também textuais - Livro dos Mortos. 

Confira algumas imagens do evento: