Por Vanir Junior
Jérôme Baschet, professor da
Universidad
Autónoma de Chiapas, no México, em seu livro,
“A Civilização Feudal: Do ano Mil à Colonização da América”,
propõe sintetizar o que foi a sociedade medieval, sobretudo, o período do
feudalismo por uma nova ótica reflexiva.
O autor preza por uma análise crítica a respeito da civilização feudal,
sendo seu viés a concepção de “Longa Idade Média” (o que demonstra a influência
de nomes como Jacques Le Goff em seu trabalho), afirmando que tal civilização
não se restringiu à Europa, mas se estendeu às conquistas hispânicas na América,
que seriam portadoras de uma herança de valores típicos da sociedade feudal.
O livro de Baschet se divide em duas partes totalizando dez capítulos. A
primeira delas – dividida em quatro capítulos – traz informações e
conhecimentos de base sobre a formação da sociedade medieval, utilizando para
tal compreensão duas palavras-chave: feudalismo e Igreja
. É
nesta primeira parte também que o autor trata da questão principal do livro ao
fazer a “
junção entre Europa medieval e a
América Colonial” .
A segunda parte – com seis capítulos – tem como proposta compreender, de
forma mais aprofundada, os aspectos e mecanismos que compunham a sociedade
feudal, bem como suas estruturas mentais/culturais mais fundamentais. Há o
considerável enfoque nas mentalidades
,
com a abordagem de temas como o tempo, o espaço, moral, imagem, entre outros
. O
objetivo é compreender o universo medieval sem, contudo, dissociar em tal
processo elementos como economia, religião, sociedade e política
.
É possível dizer que Baschet, em sua análise, preza por uma idéia de
continuidade a respeito da Idade Média – já que a propõe como longa – e vê a
periodização como algo artificial. O autor propõe romper com o quadro habitual
que vê o fim do período
medieval em 1453. Para ele, as convenções sociais feudais permaneceram durante
muito tempo não só na Europa, como também nas terras americanas, que herdam a
muito do quadro sócio-cultural medieval. Os conquistadores da América estavam
imbuídos de uma visão medieval.
Neste sentido, o autor se refere a uma permanência estrutural do “
essencial do feudalismo”
. Baschet defendeu, por exemplo, a
existência de "feudalismo" na América colonial, sobretudo, no México, uma vez que houve a continuidade do essencial das estruturas feudais adaptadas à realidade colonial, a partir do papel fundamental de dominação/estruturação da Igreja,
juntamente com uma série de relações políticas entre uma camada aristocrática
(o que fica claro no sistema das
encomiendas
e
repartimientos) e a monarquia.
Referente a este último aspecto citado, por mais que tenha havido modificações
na relação monarquia e aristocracia no período considerado moderno, para Baschet isso não foi suficiente para se romper a lógica feudal.
Sobre esta análise, o autor dedica o último tópico do capítulo IV da
primeira parte do livro, dizendo que o feudalismo não é imóvel, mas, sim,
apresenta dinamismo para modificações. Fala, desta forma, de um feudalismo colonial. Estabelece, assim, um quadro comparativo
da Europa feudal com a América colonial para comprovar sua hipótese de
continuidade de estruturas feudais no mundo colonial americano
.
Não é possível falar propriamente de uma relação de
dominium, ou seja, de uma fusão de poder sobre terras e homens
.
Entretanto, a estrutura da
encomienda,
excetuando-se esta noção do
dominium,
de resto, constituiu-se como um elemento feudal – na visão de Baschet – já que
era concedida por uma autoridade superior como recompensa por serviço prestado,
reproduzindo parcialmente a dominação feudal em solo colonial americano.
Referente à Igreja, há quase que um completo predomínio da estrutura
eclesiástica medieval na América. É possível falar da riqueza da Igreja, de
suas terras, dos processos de evangelização/luta contra o paganismo, o culto
dos santos (que substituíram cultos indígenas), entre outros. O papel da Igreja
no mundo colonial foi quase que igual ao do mundo medieval, se impondo como
reguladora religiosa, cultural e moral da sociedade, por meio da sacralização
da mesma.
Assim, Baschet fala da existência de um “
feudalismo tardio e dependente”,
que, mesmo tendo especificidades próprias do contexto americano (afinal, a
cultura americana não se anula em favor da européia, como no caso da
persistência de crenças antigas que continuaram sob roupagem cristã ou ídolos e
cultos escondidos nos fundos das igrejas), manteve o principal referencial
político da Europa medieval, uma vez que era ela quem transferia as referências
feudais ao mundo colonial.
Desta forma, é possível dizer que, ao mesmo tempo em que defende uma
longuíssima Idade Média, Baschet a transpõe para lógica de colonização
americana. Para o autor, os conquistadores espanhóis, guiados pelo espírito da
Reconquista e a conquista de novos territórios, possuem uma visão de mundo impregnada
de valores medievais
,
tendo como principal objetivo a cristianização/evangelização dos territórios
conquistados.
Assim, o autor propõe que a passagem da Idade Média para a Idade Moderna
deve ser repensada, pois não há um corte incisivo entre as épocas. Há uma
junção em que elementos medievais permanecem durante muito tempo e as
continuidades são várias: ritos de sagração dos reis, a sociedade estamental, a
influência/dominação da Igreja, tendo tais estruturas permanecido até o século
XIX
. O
próprio movimento de Reconquista é medieval e em terras americanas os
conquistadores tiveram como padroeiro Santiago
Matamoros.
Ao falar de uma herança medieval no México, Baschet faz críticas aos
estudos de Luís Weckman, pois o mesmo se limita a isolar aspectos que são
similares tanto na sociedade medieval, quando na sociedade colonial,
listando-os de forma semelhante a um catálogo. Isso impede uma análise profunda
da dinâmica que une o mundo medieval ao mundo colonial mexicano
.
O autor também critica Weckman no sentido de dizer que o mesmo permanece
aprisionado ao tradicionalismo de uma oposição entre Idade Média e Moderna,
dizendo que, em meio à difusão das idéias renascentistas, a Espanha permanecia
medieval e atrasada, enquanto o resto da Europa já era “moderno”. Baschet, além
de discordar que a Espanha fosse atrasada – uma vez que foi uma das pioneiras a
se lançar no processo de conquista da América, além de Fernando de Aragão ser
considerado como modelo de príncipe para Maquiavel – nega que renascimento
tenha provocado total ruptura, já que a tal idéia (ou seja, a de renascimento)
é algo que remonta ao período medieval, estando suficientemente “
longe de marcar o fim da Idade Média”.
É provável que o grande problema da obra de Baschet esteja no sentido de
que, ao focar esta noção de “Longa Idade Média”, acaba desconsiderando a existência
de algumas rupturas no processo. O autor não as nega, mas praticamente não as
enfatiza. Desta forma, o artigo de Ana Carolina Almeida, intitulado como “
Pensando o fim da Idade Média: a longa Idade
Média e Le Goff e a colonização da América de Baschet”
trata, em partes, desta questão.
Enfatizando que Baschet foi o discípulo de Le Goff que mais levou à
frente a idéia de “Longa Idade Média”, Ana Carolina diz que historiadores como
Guy Lobrichon não aceitam “
o
prolongamento da Idade Média para além do século XVI”,
justamente pela existência de rupturas – que acabaram não tendo muito espaço no
trabalho de Jérôme Baschet – em pontos centrais que constituem o medievo. Ana Carolina ressalta que uma das principais rupturas foi a Reforma Protestante,
desencadeando mudanças nos planos de dominação religiosa da Igreja Católica.
Outro ponto importante levantado por Ana Carolina é a questão da formação
dos Estados Nacionais
,
que acaba resultando na subordinação das igrejas que estavam em territórios dos
países em processo de formação. É importante ressaltar que a Igreja Católica, na figura da Igreja de Roma,
pelo menos desde o fim da antiguidade, aspirava a formação de uma
Respública Christiana. Ou seja, seria a
formação político-religiosa em que a Igreja de Roma se tornaria a chefe de uma
teocracia papal, situação em que todas as igrejas e instituições temporais -
monarquias
- estariam subordinadas ao poder do Papa.
Com a centralização dos Estados Modernos, este sonho universalista papal
não se concretizou e a Igreja passa, de certo modo, a ficar num status mais contido, tendo o papado –
como ressaltou Ana Carolina – que obedecer determinadas imposições referente às
taxações, exercícios jurídicos, entre outras.