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sábado, 19 de abril de 2014

Por Rafael Oliveira

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O Brasil tem a maior população negra fora da África.[1] No censo de 2010[2], 52,67% da população brasileira se declarou não-branca.[3] Porém, em nossa sociedade marcada pelo colonialismo europeu, há um grande processo de desvalorização de tudo que possa a ser relacionado a África. De acordo com Ricardo Ferreira,

Vivemos em uma sociedade na qual os valores determinados por uma cultura branca europeia são vistos como superiores, ocasionando aos afro-descendentes o desenvolvimento de auto-imagem negativa, acompanhada de baixa auto-estima, o que muito contribui para gerar condições desumanas de existência e tende a perpetuar-se em um processo de exclusão, sustentado por complexo mecanismo social.[4]

            Nesse trabalho pretendemos discutir a questão do negro a partir de três pontos: o preconceito existente na sociedade brasileira contra os negros, a formação da identidade negra, e como o cabelo é utilizado na afirmação de sua identidade.

Eu não sou preconceituoso, só "num" gosto de preto.

O discurso de que não há preconceito no Brasil, porque aqui existe a chamada democracia racial, há muito vem sendo questionado no campo acadêmico. De acordo com Da Matta, a democracia racial foi definida como o mito fundador das relações raciais brasileiras[5], muito difundida por Gilberto Freyre, que em seu livro Casa Grande & Senzala pregava que no Brasil as três raças conviviam harmonicamente[6]. Assim, parte-se do pressuposto de que por ser um país onde há uma mistura das “três raças – indígena, branca e negra”, todo mundo é um pouco miscigenado e portando não é possível se ter preconceito. Para Sansone, “é o mito aceito pela grande maioria, reproduzido na vida cotidiana”[7].
            Porém, como destaca Ferreira, “o preconceito revela-se no dia-a-dia, nas situações mais simples”[8]. Se pararmos para analisar, podemos perceber que em quase todos os aspectos da sociedade, o negro ainda é visto como inferior ao branco. Na mídia, a maioria das modelos são brancas. Nas novelas, as personagens negras só possuem espaço em papéis menores, como de empregada doméstica.[9] Esse mecanismo serve para demarcar precisamente o local que cada “raça” deve ocupar na sociedade. Porém não podemos colocar a mídia como grande vilã, pois as telenovelas não só disseminam preconceitos, como se criam em torno deles.
            Muitas das vezes, o preconceito racial vem escondido atrás de frases educadas e eufemismos, alimentando o mito de que somos um país onde se aceita todas as diferenças.[10] Muitas pessoas com medo de parecerem preconceituosas por chamarem negros de negros, acabam adotando o discurso “politicamente correto” e chamando-os de morenos, marrom bombom, etc. “É um recurso simbólico de fuga de uma realidade em que a discriminação impera”.[11] Sinsone nos diz que até mesmo dentro das famílias o preconceito está presente pois os membros com traços mais negróides são considerados mais feios.[12]
            Ainda de acordo com Sinsone,

As relações sociais e a posição dos afro-latinos são vistas por um número considerável de estudiosos, em sua maioria não latino-americanos, como piores do que em sociedades mais polarizadas racialmente, em particular os Estados Unidos.[13]
            Assim,
O Brasil, com sua enorme população negra, que antigamente era retratado como um paraíso racial, é agora visto como um inferno racial.[14]

Sou negro sim.

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É através desse processo de interação social, que são constituídas as identidades individuas e coletivas.[15] Quando uma pessoa negra, em processo de formação de identidade, convive em um espaço onde é sempre visto como inferior, ela acaba internalizando e reproduzindo essa concepção. É exatamente isso que ocorre nas escolas brasileiras atualmente.[16] É preciso uma rediscussão do modelo escolar de modo a não tratar o negro como inferior no dia-a-dia e nos livros didáticos. É preciso fazer entender que a cultura negra não é inferior ou “endemoniada”. Nas palavras de Sansone,

A cultura negra pode ser definida como a subcultura específica das pessoas de origem africana dentro de um sistema social que enfatize a cor, ou a ascendência a partir da cor, como um critério importante de diferenciação ou segregação das pessoas.[17]

Logo,

A construção da identidade negra está associada a usos específicos do corpo (negro), e isso a distingue da maioria das outras identidades étnicas. [...] Branco e negro existem, em larga medida, em relação um ao outro; as “diferenças” entre negros e brancos variam conforme o contexto e precisam ser definidas em relação a sistemas nacionais específicos e a hierarquias globais de poder, que foram legitimados em termos raciais e que legitimam os termos raciais.[18]

            Porém Ferreira acredita que o contato com outros negros faz com que o negro tome consciência identitária de grupo, transformando os valores negativos e estigmatizados aos quais são relacionados, em afirmações positivas e que criam sentimento de pertencimento à “raça negra”.[19]

No Brasil, a negritude não é uma categoria racial fixada numa diferença biológica, mas uma identidade racial e étnica que pode basear-se numa multiplicidade de fatores: o modo de administrar a aparência física negra, o uso de traços culturais associados à tradição afro-brasileira (particularmente na religião, na música e na culinária), o status, ou uma combinação desses fatores.[20]

            Com base nessa discussão, trataremos, nesse trabalho, com o uso do cabelo como construtor da identidade negra.

Cabelo e Identidade

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Meu cabelo duro é assim, cabelo duro, de pixaim/ Nega não precisa nem falar, nega não precisa nem dizer/ Que meu cabelo duro se parece é com você...[21]

Nega do cabelo duro/ Qual é o pente que te penteia/ Teu cabelo está a moda/ O teu corpo bamboleia/Misamplias ferro e fogo/ Não desmancha nem na areia...[22]

            A identidade negra é construída (ou reconstruída) cotidianamente como uma forma de autoafirmação em um ambiente hostil, onde qualquer relação com a África é vista como portadora de inferioridade. Há varias formas de se (re)construir essa identidade, e uma delas é através da adoção do cabelo afro.
            Nilma Gomes, em seu artigo Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural? nos dá um panorama do que é ser uma menina negra na escola. Segundo ela:

As meninas negras, durante a infância, são submetidas a verdadeiros rituais de manipulação do cabelo, realizado pela mãe, tia, irmã mais velha ou pelo adulto mais próximo. As tranças são as primeiras técnicas utilizadas. [23]

            Para a autora, isso se dá numa tentativa de romper com o estereótipo de negro sujo, descabelado e feio. Ela destaca ainda que algumas pessoas fazem as tranças porque gostam, o que demonstra a estreita relação entre o negro, a identidade negra, e o cabelo.[24] A verdade é que mesmo com todo esse ritual e com a tentativa de quebra de estereótipo, a criança negra sofre com preconceito devido ao cabelo. É comum apelidos pejorativos tais como “cabelo de Bombril”, “cabelo – duro”, etc. Muitas vezes esses são os primeiros contatos desses negros com o preconceito, e acabam criando valores que eles levam para o resto da vida. Assim, “a rejeição do cabelo pode levar a uma sensação de inferioridade e de baixa auto-estima.”[25]   Quando adolescentes e adultos, esses negros ainda sofrem influência da mídia e do consumo cosmetológico, que tentam padronizar e unificar o padrão de beleza humano em um padrão europeu.[26]
            Para Gomes, “construir uma identidade negra positiva em uma sociedade que, historicamente, ensina o negro, desde muito cedo, que para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo, é um desafio enfrentado pelos negros brasileiros”[27]
Esse desafio faz com que, atualmente, ocorra “um crescimento de uma estética negra com uma valorização positiva de aspectos fenótipos naturais”[28]. Porém essa busca pela afirmação da identidade negra com os cabelos não é novidade. Na década de 1960, surgiu o movimento Black Power, que pregava o não alisamento do cabelo crespo com o slogan de “Black is Beautiful”, tendo principalmente no Rio e em São Paulo seus grandes difusores.[29] Na década de 1970, foi a vez do rastafarianismo emergir para modificar a imagem de negro feio.[30]
De acordo com Rita Maia, o “uso de cabelos ‘naturais’ (sem processo de alisamento), arrumado em complexos trançados ou então ao estilo ‘Black Power’ [...]”[31] significa “[...] uma atitude de valoração positiva e preservação dos traços fenotípicos negros.”[32]
Ou seja, através dos Black Power ou dos dreadlocks dos rastaman, uma parte dos negros modelavam seu cabelo de modo a marcar sua identidade negra. Não havia mais uma busca pelo padrão de beleza europeu, mas sim a valorização de sua beleza natural. De acordo com Macedo,

As tranças dreadlocks foram tomadas pelo ativismo negro de várias partes do mundo como uma forma de afirmação da identidade negra e de posicionamento político, algo que já havia acontecido com o corte “afro” ou black power na década anterior. Além desse aspecto político, esses fatos demonstravam que era possível criar um estilo negro próprio, desde que começássemos a valorizar o nosso corpo de forma sincera e livre de estereótipos.[33]

Conclusão

            É evidente que apenas a adoção do estilo de cabelo africano não significa a adoção da identidade negra. Como vimos a construção da identidade se dá através de vários mecanismos sociais e culturais, onde o negro vai se familiarizando com a chamada cultura negra e com a causa de valorização do grupo. O movimento negro tem papel fundamental neste processo, visto que é através dele que várias conquistas em prol dos negros são conseguidas, e, além disso, permite a difusão de discussões sobre o que é ser negro em um país onde o mito da democracia racial já está impregnado na sociedade. Porém, devemos ressaltar que a utilização do cabelo afro tem importância, pois demarca a conquista de território na sociedade pelo negro, sempre subjulgado e visto com inferior. A conquista da equidade se dá através de pequenos passos, onde o principal dele é a aceitação do ser negro e o entendimento do que é ser negro. Como diria Goddard,

Eu pensava ter dado um grande salto para frente e percebo que na verdade apenas ensaiei os primeiros tímidos passos de uma longa marcha.

  
Referências Bibliográficas
AMÉRICO, Marcia Cristina. Discutindo educação, Identidade, auto-estima e responsabilidade social com  mulheres negras. Disponível em: http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/7mostra/5/116.pdf Acesso em: 01/02/2014
COUTINHO, Cassi Ladi Reis. Estética Negra: o jornal como fonte de pesquisa. Disponível em: http://94.23.146.173/ficheros/89c5b2607b44161368ab4cda36b2a789.pdf. Acesso em: 01/02/2014
FERREIRA, Ricardo Franklin. Afro-descendente: identidade em construção. São Paulo: EDUC; Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Editora Record, Rio de Janeiro, 1998.
GOMES, Nilma Lino. Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural? Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n21/n21a03 Acesso em: 02/02/2014.
MACEDO, Márcio José. “Quero uma nega de cabelo duro”. São Paulo: Disponível em: www.afirma.inf.br, 23/09/2004. Acesso em: 21/11/2012.
MAIA, Rita. O Prazer da Militância: a ética estética da “negritude ilê”. In: Diálogos & Ciência – Revista da Rede de Ensino FTC. Ano V, n.11, set. 2007. Disponível em: http://www.ftc.br/dialogos
RABELO, Danilo. Rastafari: Identidade e Hibridismo Cultural na Jamaica, 1930-1981. Dissertação de Doutorado em História na UnB. Disponível em: http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/6447/1/2006_Danilo%20Rabelo.pdf
SANSONE, Lívio. Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relações raciais e na produção cultural negra do Brasil. Salvador: Edufba; Pallas, 2007
Referência Cinematográfica
A NEGAÇÃO DO BRASIL. Direção de Joel Zito Araújo. Produção de Casa de Criação. Brasil, 2000.



[1] FERREIRA, Ricardo Franklin. Afro-descendente: identidade em construção. São Paulo: EDUC; Rio de Janeiro: Pallas,2004. p.12
[2] IBGE. Atlas do Censo Demográfico. 2010. Disponível em: www.ibge.gov.br
[3] 43,1% se declarou parda; 7,6% se declarou preta; 1% se declarou amarela; e 0,4% se declarou indígena.
[4] FERREIRA, Op. Cit., p. 12
[5] SANSONE, Lívio. Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relações raciais e na produção cultural negra do Brasil. Salvador: Edufba; Pallas, 2007. p.11
[6] FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Editora Record, Rio de Janeiro, 1998.
[7] SANSONE, Op. Cit., p. 11
[8] FERREIRA, Op. Cit., p.18
[9] A NEGAÇÃO DO BRASIL. Direção de Joel Zito Araújo. Produção de Casa de Criação. Brasil, 2000.

[10] FERREIRA, Op. Cit., p. 18
[11] Ibidem, p.18
[12] SANSONE, Op. Cit.,,p.19
[13] Ibidem, p.21
[14] Ibidem,p .21
[15] FERREIRA, Op. Cit., p.19
[16] GOMES, Nilma Lino. Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural? Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n21/n21a03 Acesso em: 02/02/2014.
[17] SANSONE, Op. Cit., p. 23
[18] Ibidem, p. 24
[19] FERREIRA, Op. Cit., p. 20
[20] SANSONE, Op. Cit., p. 25
[21] Meu Cabelo Duro é assim. In: 13 - Chiclete com Banana. BMG – Ariola, 1994. Composição: Bell Marques/ Wadinho Marques/ Paulinho Camafêu.  
[22] Nega do cabelo duro. In: Anjos do Inferno. Columbia, 1942. Composição: Rubens Soares/David Nasser. 
[23] GOMES, Nilma Lino. Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural? Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n21/n21a03 Acesso em: 02/02/2014.
[24] Ibidem.
[25] Ibidem.
[26] AMÉRICO, Marcia Cristina. Discutindo educação, Identidade, auto-estima e responsabilidade social com  mulheres negras. Disponível em: http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/7mostra/5/116.pdf Acesso em: 01/02/2014
[27] Ibidem.
[28] COUTINHO, Cassi Ladi Reis. Estética Negra: o jornal como fonte de pesquisa. Disponível em: http://94.23.146.173/ficheros/89c5b2607b44161368ab4cda36b2a789.pdf. Acesso em: 01/02/2014
[29] Ibidem.
[30] RABELO, Danilo. Rastafari: Identidade e Hibridismo Cultural na Jamaica, 1930-1981. Dissertação de Doutorado em História na UnB. Disponível em: http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/6447/1/2006_Danilo%20Rabelo.pdf
[31] MAIA, Rita. O Prazer da Militância: a ética estética da “negritude ilê”. In: Diálogos & Ciência – Revista da Rede de Ensino FTC. Ano V, n.11, set. 2007. Disponível em: http://www.ftc.br/dialogos
[32] Ibidem.
[33] MACEDO, Márcio José. “Quero uma nega de cabelo duro”. São Paulo: Disponível em: www.afirma.inf.br, 23/09/2004. Acesso em: 21/11/2012. 


quarta-feira, 19 de março de 2014


revolucaodiaria.blogspot.com
 Por Guilherme Maggesissi



            Introdução:

            Pelo próprio título desse trabalho já observamos uma complexidade e uma incongruência na articulação entre os dois fenômenos que serão estudados e, que estão apresentados no título de tal estudo. Porém, tal trabalho pretende analisar a importante relação que esses dois elementos tiveram demonstrando que um desses elementos, contribuiu como um forte fator para que houvesse o surgimento e a manutenção do outro.
Logo, para isso, teremos que romper com todos os pressupostos que temos a respeito sobre o que nos é mostrado e o que sabemos do movimento skinhead e iremos  aprofundar nosso conhecimento sobre o início de tal movimento estudando quais eram as primeiras vertentes ideológicas e culturais que tal grupo mantinha em seu início, em 1969, e como a partir da década de 70, este grupo foi adquirindo estruturas cada vez mais xenofóbicas e racistas.
Com isso, no primeiro capítulo iremos estudar o surgimento do movimento skinhead, quais eram suas ideologias e seus hábitos culturais e quem eram as pessoas que faziam parte desse grupo. No segundo capítulo, irei falar sobre as raízes jamaicanas passando de colônia da Inglaterra para um país independente em 1963, e farei um paralelo com outro fenômeno que estava surgindo em tal país crescendo junto com a euforia da independência, que é o surgimento do estilo musical denominado ska.

 O movimento Skinhead

No início do filme Skinhead attitude[1], o vocalista da banda de Ska “Bad Manners”, Buster Bloodvessel, diz que um verdadeiro skinhead, deve “amar seus Doctor Martens, amar a música ska, ter a atitude correta em seu coração e na cabeça, tem que gostar de futebol... e o mais importante, que é ser antirracista”. Podemos perceber nesse discurso, de um homem que é um dos precursores do movimento skinhead na Inglaterra, uma afirmativa que vai totalmente contra todo o estereótipo colocado nesse grupo urbano, que há muito tempo tem sido taxado estritamente de neonazista pela grande mídia e até por produções cinematográficas. Porém, como surgiu o movimento skinhead e por que eles foram taxados como sinônimos de caos urbano e ascensão neonazista na Europa e no mundo? É o que iremos estudar nesse capítulo.

O início

O movimento skinhead surgiu na Inglaterra no ano de 1969 oriundo de um outro grupo de jovens que se denominavam “Mods” (abreviação de modernists). Esses Mods eram rapazes que gostavam de andar de lambreta, usar cabelo curto, escutar música negra (Soul, Ska, Rhythm and Blues) e brigar com os Rockers, entre outras gangues. Já no final dos anos 60, tal grupo havia se dispersado ficando de um lado, grupos de rapazes mais intelectualizados, culminando em bandas como Pink Floyd e The Who e do outro, jovens que usavam a cabeça mais raspada e eram mais agressivos que foram logo chamados de hard mods.
Outro fator que ocorreu na Inglaterra durante a década de 60, é que com a independência da Jamaica (1962) e a crise estabelecida em tal país, vários jovens migram para a Inglaterra em busca de emprego e uma melhor condição de vida. Esses jovens oriundos da Jamaica (Muitos deles fazendo parte de gangues denominadas rudy boys), começaram a frequentar os mesmos bailes de ska e reggae que os mods e logo, houve uma compatibilidade entre esses dois grupos que se juntavam para dançar ao som do ska, beber e frequentar os estádios de futebol.  No final dos anos 60 essas brigas protagonizadas pelos hard mods nos estádios de futebol criaram grande repercussão na imprensa que os apelidaram de skinheads nome no qual eles são reconhecidos até hoje.
Porém, o que podemos perceber a respeito desse início do movimento skinhead, é que ele além de sofrer grande influência da cultura musical negra, oriunda principalmente da Jamaica, é que também, muitos skinheads eram negros e andavam junto com os brancos curtindo o mesmo som, e indo as mesmas festas. Com isso, um fator principal no qual hoje esse grupo é lembrado nos tempos atuais (como um grupo totalmente formado por neonazistas), era algo fora de questão no início de tal movimento, e era o fator antirracista, que prevalecia em tal grupo, nos tempos lembrados por muitos skinheads tradicionais como o ápice do movimento, que se remete ao ano de 1969.

Década de 70, o punk e o Nacional Front

Na década de 70, há o surgimento do movimento punk, que faz com que muitos jovens dentre eles, jovens skinheads, aderissem ao novo movimento. Contudo, influenciados por bandas como Sham 69, U.K. Subs entre outras, há surgimento do termo designado como “Punk Oi” que foi massivamente aceito pelo grupo de skinheads, fazendo deste, um novo estilo agregado por esse grupo.
Outro fator que desarticulou a estrutura do movimento skinhead durante a década de 70, foi o surgimento de um partido de extrema direita, denominado National Front, tal partido implantou ideias xenofóbicas e racistas em muitos jovens na Inglaterra durante tal época, agregando a ele também, jovens skinheads. Logo, ocorre uma generalização feita através dos grupos midiáticos, onde afirmava que todos os skinheads eram nazistas, apesar de haver nessa época, inúmeras bandas de reggae, de skinhead reggae e de vertentes que vinham pregando o não preconceito; essa vertente ficou conhecida como “2 Tone” e estava vigente e vigorando no movimento skinhead da época.
Assim, o movimento que antes era majoritariamente sem nenhuma intenção racista e que absorveu forte influência da cultura negra e da cultura jamaicana, foi  corrompida em parte, por partidos políticos de extrema direita que trouxeram para sua causa alguns jovens skinheads, onde a imprensa, fez o resto do trabalho generalizante, atribuindo a todos os participantes do movimento, como sendo adeptos à  ideologia Nazi-fascista. Hoje em dia, o movimento skinhead é dividido em várias vertentes, porém, não podemos esquecer a importante influência que a cultura negra representou e ainda representa em tal movimento.

Acervo Pessoal

 Jamaica: Colonização e independência

A Jamaica é um país localizado na América central, colonizado desde o século XVII (1670), pela Inglaterra. Tal colônia, teve como principal atividade ao longo da colonização inglesa, o cultivo de cana-de-açúcar, onde para incentivar e para aumentar a produtividade de tal atividade, a Inglaterra promoveu um crescente fluxo de escravos para trabalharem nesse setor em tal região.
Segundo Richard Price em seu artigo Reinventando a história dos quilombos: Rasuras e confabulações[2], a Jamaica e no Suriname são os países onde existem as maiores populações remanescentes de quilombos. Essa informação, nos mostra o grande número de populações negras residentes no território jamaicano, que vieram trazidas para trabalharem no cultivo de cana-de-açúcar. Logo, a partir do século XIX a população negra jamaicana superou em número a população branca habitada em tal local, e em conjunto com o crescimento populacional da população negra, há também um aumento do número de reivindicações e de revoltas de tal grupo por melhorias em suas condições de vida, liberdade e fim da escravidão.
  
Ska e independência jamaicana

Reúnam-se ,  irmãos e irmãs. Nós somos independentes , somos independentes. Junte-se as  mãos, as crianças começaram a dançar. Nós somos independentes , somos independentes...[3]

Em 5 de agosto de 1962 a Jamaica obteve sua independência da coroa Britânica. O clima de euforia se espalha pelo país, surgindo uma maior valorização para a cultura e para o nacionalismo jamaicano. Dessa nova demanda cultural, o ska passa a ganhar maior notoriedade nas ruas e nos bailes jamaicanos, tal estilo musical surgido nos fins dos anos 50 passa a se tornar o som sinônimo do que é ser jamaicano a partir do momento que tal país conquista sua independência e passa a valorizar hábitos e elementos culturais oriundos de seu próprio país.
O ska que é um estilo musical derivado do R&B (Rhythm and Blues), de elementos africanos, de influência do Soul e da música negra dos Estados Unidos, e também de estilos musicais derivados das ilhas caribenhas, que acaba pegando tais influências e adquirindo características próprias, tornando-se o primeiro som legitimamente jamaicano.
Assim, o processo de independência se juntou com o agitado ritmo que era o ska, acarretando na euforia do momento e contribuindo para a ascensão de tal ritmo na Jamaica, logo inúmeras bandas surgiram mostrando seu trabalho. O ska passa a ser reconhecido por todo o mundo ganhando adeptos até na Inglaterra, onde grupos de Mods se juntavam para agitarem ao som desse novo estilo.
Outro processo que o ska desencadeou, foi o surgimento de um grupo de delinquentes juvenis jamaicanos que eram chamados de “Rudy Boys”, esses grupos de rapazes se reuniam para brigar e para curtir o ska nos bailes jamaicanos. Logo, com um processo de crise que irá se implantar na Jamaica, tais delinquentes irão migrar para a Inglaterra em busca de melhor condições de vida e lá, encontraram com grupos de hard mods, grupo no qual eles irão ver que tem muito em comum.

Rudy Boys. Fonte: Acervo Pessoal


Conclusão

        Logo, a partir do estudo sobre o surgimento do movimento skinhead e também, a partir de um estudo sobre a história jamaicana, percebemos que o processo cultural e o surgimento de tal grupo (os skinheads), visto hoje pela grande maioria como neonazista, não está ligado estritamente a história da Inglaterra, e que também não está ligado somente a história da Jamaica; tal grupo está ligado também a todo um processo histórico que vem desde o momento em que os negros vieram pra Jamaica para trabalharem no cultivo de cana-de-açúcar. É no navio negreiro que chega toda população ascendente que irá desencadear um processo contestante e cultural proporcionando o surgimento do ska, o processo de independência jamaicana, e a própria cultura jamaicana que irá se espalhar pelo mundo.
            É da cultura negra que surgirá elementos fundamentais para o surgimento de tal estilo musical e de todos os seus derivados. Com isso, tais fatores que parecem tão longe um do outro, que é o movimento skinhead e o navio negreiro, estão ligados por um traço histórico, e reduzir tal movimento a um fenômeno estritamente ligado ao nazi-fascismo é algo de extrema ignorância sobre o assunto. Logo, os traços históricos que unem o movimento skinhead e toda a cultura e a história oriundas do navio negreiro, não serão apagados enquanto houver estudiosos curiosos em saber mais sobre as origens de determinado assunto e, um compromisso com a verdadeira história.

Acervo Pessoal


Referência bibliográficas

MARSHALL, George. Espírito de 69: A bíblia skinhead. Inglaterra: Trama, 1993.
PRICE, Richard. Reinventando a história dos quilombos: Rasuras e confabulações. Disponível em: http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n23_p241.pdf. Acesso em: 16/02/2014, 15:33:30.
VASCONCELOS, Wilson Santos de. Skinheads: O movimento e suas dissidências. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/43926406/Skinheads-o-movimento-e-suas-dissidencias. Acesso em: 16/02/2014, 18:09.

Referência Conematográfica:

SKINHEAD Attitude. Produção de Werner Schweizer. Produtora: Valentin Greutert. Suíça, França e Inglaterra:  , 2003. 1 videocassete.
LA HISTÓRIA del reggae. Produção: BBC. Londres. 2002. 1 videocassete.
           
           








[1] SKINHEAD Attitude. Produção de Werner Schweizer. Produtora: Valentin Greutert. Suíça, França e Inglaterra:  , 2003. 1 videocassete
[2] PRICE, Richard. Reinventando a história dos quilombos: Rasuras e confabulações. Disponível em: http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n23_p241.pdf. Acesso em: 16/02/2014, 15:33:30.
[3] Derrick Morgan. Música: Forward march. 1962